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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Recanto Escuro

Eu venho de um recanto escuro
O sol, luz perpendicular
Do outro lado azul do muro
Não vou saltar

Eu chego às portas da cidade
E nada procuro fazer
Espero, nem feliz nem gaia
Acontecer

Não salto mas sou carregada
Por asas que a gente não tem
A luz não me fulmina os olhos
Nem vejo bem

Em breve só saio de noite
A lua não me rasga o peito
Cool jazz me faz feliz e só
Não tenho jeito

O álcool só me faz chorar
Convidam-me a mudar o mundo
É fácil: nem tem que pensar
Nem ver o fundo

O chão da prisão militar
Meu coração um fogareiro
Foi só fazer pose e cantar
Presa ao dinheiro

Mas é sempre o recanto escuro
Só Deus sabe o duro que eu dei
Mulher, aos prazeres, futuro
Eu me guardei

Coisas sagradas permanecem
Nem o Demo as pode abalar
Espírito é o que enfim resulta
De corpo, alma, feitos: cantar

- Caetano Veloso

Escute aqui:

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Paralelas

Quando as vidas tornam-se paralelas não há como se econtrarem novamente. Só se cruzaram se um dia chegaram ao infinito hipotético, pois é lá que os paralelos se encontram. Caso contrário, serão sempre duas retas como as marcas dos pneus na água das ruas, sofrendo por jamais poderem se entrecortarem, sem se amarem e sem conseguir ser um o infinito do outro.


Paralelas

Composição: Belchior

Dentro do carro,
sobre o trevo, a cem por hora,
o meu amor
Só tens agora os carinhos do motor
E no escritório onde eu trabalho
e fico rico quanto mais eu multiplico,
diminui o meu amor...
Em cada luz de mercúrio, vejo a luz do teu olhar
Passas praças, viadutos,
nem te lembras de voltar,
de voltar, de voltar...
No corcovado quem abre os braços, sou eu
Copacabana esta semana, o mar, sou eu
e as borboletas do que fui pousam demais
por entre as flores do asfalto em que tu vais...

E as paralelas dos pneus n'água das ruas
São duas estradas nuas
em que foges do que é teu
No apartamento, oitavo andar, abro a vidraça e grito
quando o carro passa:
- Teu infinito sou eu, sou eu, sou eu, sou eu
No Corcovado, quem abre os braços, sou eu,
Copocabana esta semana, o mar, sou eu
e as borboletas do que fui pousam demais
por entre as flores do asfalto em que tu vais.


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Música: Serenata do Adeus


"A lua aqui no céu surgiu. Não foi a mesma que te viu." Parecia o poetinha estar inspiradíssimo - talvez com o luar, talvez com uma paixão - ao começar com esses versos "Serenata do Adeus". Já nas primeiras notas é possível entender que a letra discorrida pela veia poética de Vinícius traria - sem nenhuma surpresa - mais uma bela, emocionada e saudosista canção.
Há um pesar imenso de separação, uma dor de amor que terminou. Nem mesmo a Lua, e sua divina inspiração eram a mesma para os dois, tudo os distanciava agora. Só restava o temido adeus. Clama o eu-lírico por uma vontade de ficar. Mas tendo, a contragosto, que partir. E ir morrendo pelas feridas que esse amor lhe trás. Ao fim implora que essa mulher o mate de uma vez, para que não sofra mais, que se esvaia toda dor e desilusão. Compara-se a estrela pura que morreu na triste tarde, assim como ele que morre pelo adeus. Pelo eterno adeus imortalizado na serenata final da separação. Sem mais chorar, sofrer. Apenas tentar seguir em frente. E nada mais.


sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Música: Viagem

Como não concordar? "Viagem" é realmente uma utópica viagem pelas asas da mãe poesia. Depois da chegada da lírica presença é hora de partir e deixar a tristeza para trás, "tô de malas prontas, hoje a poesia veio ao meu encontro, vamos viajar". Sigamos as trilhas de Sol, que de tantas trevas e desamores pensamos que nem existiam mais. Porém elas sempre estiveram ali, escondidas querendo brincar, querendo nos acompanhar em nossa longa jornada. Valsemos com as aves trovas de poesia que são embaladas por nossos versos pequeninos. Colhamos as mais belas folhas do jardim, com uma redenção a nós mesmo pelos tempos de medo.
Mas não chorais poesia, nós vamos voltar num luzir de lua serenizado. No alazão da noite. Raio!
Na voz de Marisa Gata Mansa entendo sua versão mais que definitiva e intransponível, a doce voz-flauta de Gata Mansa atravessa todas a gerações por mais de 40 anos. Essa música resiste no imaginário e na alma das pessoas. Com a leveza das sua interpretação a cantora consegue purificar ainda mais as palavras cristalinas escrita por um jovem rapaz de 14 anos a sua época, Paulo César Pinheiro, que em toda sua imaturidade, maturou em umas das mais inspiradas e poéticas músicas de que já ouvi falar.
Não há análises que definam a letra de Paulo César, nem a voz de Marisa e nem a melodia reconfortante de João de Aquino. Só nos resta ouvirmos, apreciar até a última notinha que pudermos captar. Como um dos últimos bálsamos a toda correria, toda individualidade, todo estresse. Vamos viajar nas asas poéticas da luz, da arte, da imortal poesia-cantada: a música!

Marisa Gata Mansa - Viagem


sexta-feira, 8 de outubro de 2010

De Luigi Tenco

Música apresentada no Festival de San Remo de 1967 pela cantora Dalida, Ciao amore ciao, traz um ideal de partida. Um adeus para reflexão, não uma ida eterna mas um vagar de auto-conhecimento. De se compreender nesse mundo cheio de luzes, em que somos nada, em que não temos nada. Com a consciência de que por mais que andemos, por mais que digamos adeus (ciao), sempre voltaremos. Mesmo que não tenhamos mais dinheiro para voltar.
Mesmo com a desclassificação da canção, e do possível suicídio de Tenco devido a má colocação, a música de Luigi resistiu ao próprio tempo e as pessoas que não compreenderam a mensagem que queria ser posta no Festival, mostrando como nem todos os julgamentos são definitivos.

CIAO AMORE CIAO

Composição: Luigi Tenco

Ciao Amore Ciao
La solita strada, bianca come il sale
Il grano da crescere, i campi da arare
Guardare ogni giorno
Se piove o c'è il sole,
Per saper se domani
Si vive o si muore
E un bel giorno dire basta e andare via
Ciao amore,
Ciao amore, ciao amore ciao
Andare via lontano
A cercare un altro mondo
Dire adio al cortile,
Andarsene sognando.
E poi mille strade
Grigie come il fumo
In un mondo di luci
Sentirsi nessuno.
Saltare cent'anni
In un giorno solo
Dai carri dei campi
Agli aeri nel cielo
E non capirci niente
E aver voglia di tornare da te
Ciao amore,
Ciao amore, ciao amore ciao
Non saper fare niente
In un mondo che sa tutto
E non avere un soldo
Memmemo per tornare.
Ciao amore,
Ciao amore, ciao amore ciao
Ciao amore,
Ciao amore, ciao amore ciao

TRADUÇÃO

Tchau Amor, Tchau

A sólita estrada branca como o sal,
o grão para crescer os campos para arar.
Olhar cada dia
se chove ou faz sol,
para saber se amanhã
se vive ou se morre.
E um belo dia para dizer basta ... e ir embora.
Tchau amor,
tchau amor, tchau amor tchau.
Ir embora, longe
buscar um outro mundo,
dizer adeus ao pátio
se ir embora sonhando.
E após mil estradas
cinzentas como a fumaça,
num mundo de luzes
sentir-se ninguém.
Saltar cem anos
num só dia,
dos carros nos campos
aos aviões no céu.
E não entender nada
e ter vontade de voltar para ti.
Tchau amor,
tchau amor, tchau amor tchau.
Não saber fazer nada
num mundo que sabe tudo,
e não ter um dinheiro
nem mesmo para voltar.
Tchau amor,
tchau amor, tchau amor tchau.
Tchau amor,
tchau amor, tchau amor tchau.


Luigi Tenco - Ciao, amore, ciao