Eu venho de um recanto escuro O sol, luz perpendicular Do outro lado azul do muro Não vou saltar Eu chego às portas da cidade E nada procuro fazer Espero, nem feliz nem gaia Acontecer Não salto mas sou carregada Por asas que a gente não tem A luz não me fulmina os olhos Nem vejo bem Em breve só saio de noite A lua não me rasga o peito Cool jazz me faz feliz e só Não tenho jeito O álcool só me faz chorar Convidam-me a mudar o mundo É fácil: nem tem que pensar Nem ver o fundo O chão da prisão militar Meu coração um fogareiro Foi só fazer pose e cantar Presa ao dinheiro Mas é sempre o recanto escuro Só Deus sabe o duro que eu dei Mulher, aos prazeres, futuro Eu me guardei Coisas sagradas permanecem Nem o Demo as pode abalar Espírito é o que enfim resulta De corpo, alma, feitos: cantar
Quando as vidas tornam-se paralelas não há como se econtrarem novamente. Só se cruzaram se um dia chegaram ao infinito hipotético, pois é lá que os paralelos se encontram. Caso contrário, serão sempre duas retas como as marcas dos pneus na água das ruas, sofrendo por jamais poderem se entrecortarem, sem se amarem e sem conseguir ser um o infinito do outro.
Paralelas
Composição: Belchior
Dentro do carro, sobre o trevo, a cem por hora, o meu amor Só tens agora os carinhos do motor E no escritório onde eu trabalho e fico rico quanto mais eu multiplico, diminui o meu amor... Em cada luz de mercúrio, vejo a luz do teu olhar Passas praças, viadutos, nem te lembras de voltar, de voltar, de voltar... No corcovado quem abre os braços, sou eu Copacabana esta semana, o mar, sou eu e as borboletas do que fui pousam demais por entre as flores do asfalto em que tu vais...
E as paralelas dos pneus n'água das ruas São duas estradas nuas em que foges do que é teu No apartamento, oitavo andar, abro a vidraça e grito quando o carro passa: - Teu infinito sou eu, sou eu, sou eu, sou eu No Corcovado, quem abre os braços, sou eu, Copocabana esta semana, o mar, sou eu e as borboletas do que fui pousam demais por entre as flores do asfalto em que tu vais.
"A lua aqui no céu surgiu. Não foi a mesma que te viu." Parecia o poetinha estar inspiradíssimo - talvez com o luar, talvez com uma paixão - ao começar com esses versos "Serenata do Adeus". Já nas primeiras notas é possível entender que a letra discorrida pela veia poética de Vinícius traria - sem nenhuma surpresa - mais uma bela, emocionada e saudosista canção.
Há um pesar imenso de separação, uma dor de amor que terminou. Nem mesmo a Lua, e sua divina inspiração eram a mesma para os dois, tudo os distanciava agora. Só restava o temido adeus. Clama o eu-lírico por uma vontade de ficar. Mas tendo, a contragosto, que partir. E ir morrendo pelas feridas que esse amor lhe trás. Ao fim implora que essa mulher o mate de uma vez, para que não sofra mais, que se esvaia toda dor e desilusão. Compara-se a estrela pura que morreu na triste tarde, assim como ele que morre pelo adeus. Pelo eterno adeus imortalizado na serenata final da separação. Sem mais chorar, sofrer. Apenas tentar seguir em frente. E nada mais.
Como não concordar? "Viagem" é realmente uma utópica viagem pelas asas da mãe poesia. Depois da chegada da lírica presença é hora de partir e deixar a tristeza para trás, "tô de malas prontas, hoje a poesia veio ao meu encontro, vamos viajar". Sigamos as trilhas de Sol, que de tantas trevas e desamores pensamos que nem existiam mais. Porém elas sempre estiveram ali, escondidas querendo brincar, querendo nos acompanhar em nossa longa jornada. Valsemos com as aves trovas de poesia que são embaladas por nossos versos pequeninos. Colhamos as mais belas folhas do jardim, com uma redenção a nós mesmo pelos tempos de medo. Mas não chorais poesia, nós vamos voltar num luzir de lua serenizado. No alazão da noite. Raio! Na voz de Marisa Gata Mansa entendo sua versão mais que definitiva e intransponível, a doce voz-flauta de Gata Mansa atravessa todas a gerações por mais de 40 anos. Essa música resiste no imaginário e na alma das pessoas. Com a leveza das sua interpretação a cantora consegue purificar ainda mais as palavras cristalinas escrita por um jovem rapaz de 14 anos a sua época, Paulo César Pinheiro, que em toda sua imaturidade, maturou em umas das mais inspiradas e poéticas músicas de que já ouvi falar. Não há análises que definam a letra de Paulo César, nem a voz de Marisa e nem a melodia reconfortante de João de Aquino. Só nos resta ouvirmos, apreciar até a última notinha que pudermos captar. Como um dos últimos bálsamos a toda correria, toda individualidade, todo estresse. Vamos viajar nas asas poéticas da luz, da arte, da imortal poesia-cantada: a música!
Música apresentada no Festival de San Remo de 1967 pela cantora Dalida, Ciao amore ciao, traz um ideal de partida. Um adeus para reflexão, não uma ida eterna mas um vagar de auto-conhecimento. De se compreender nesse mundo cheio de luzes, em que somos nada, em que não temos nada. Com a consciência de que por mais que andemos, por mais que digamos adeus (ciao), sempre voltaremos. Mesmo que não tenhamos mais dinheiro para voltar. Mesmo com a desclassificação da canção, e do possível suicídio de Tenco devido a má colocação, a música de Luigi resistiu ao próprio tempo e as pessoas que não compreenderam a mensagem que queria ser posta no Festival, mostrando como nem todos os julgamentos são definitivos.
CIAO AMORE CIAO
Composição: Luigi Tenco
Ciao Amore Ciao La solita strada, bianca come il sale Il grano da crescere, i campi da arare Guardare ogni giorno Se piove o c'è il sole, Per saper se domani Si vive o si muore E un bel giorno dire basta e andare via Ciao amore, Ciao amore, ciao amore ciao Andare via lontano A cercare un altro mondo Dire adio al cortile, Andarsene sognando. E poi mille strade Grigie come il fumo In un mondo di luci Sentirsi nessuno. Saltare cent'anni In un giorno solo Dai carri dei campi Agli aeri nel cielo E non capirci niente E aver voglia di tornare da te Ciao amore, Ciao amore, ciao amore ciao Non saper fare niente In un mondo che sa tutto E non avere un soldo Memmemo per tornare. Ciao amore, Ciao amore, ciao amore ciao Ciao amore, Ciao amore, ciao amore ciao
TRADUÇÃO
Tchau Amor, Tchau
A sólita estrada branca como o sal, o grão para crescer os campos para arar. Olhar cada dia se chove ou faz sol, para saber se amanhã se vive ou se morre. E um belo dia para dizer basta ... e ir embora. Tchau amor, tchau amor, tchau amor tchau. Ir embora, longe buscar um outro mundo, dizer adeus ao pátio se ir embora sonhando. E após mil estradas cinzentas como a fumaça, num mundo de luzes sentir-se ninguém. Saltar cem anos num só dia, dos carros nos campos aos aviões no céu. E não entender nada e ter vontade de voltar para ti. Tchau amor, tchau amor, tchau amor tchau. Não saber fazer nada num mundo que sabe tudo, e não ter um dinheiro nem mesmo para voltar. Tchau amor, tchau amor, tchau amor tchau. Tchau amor, tchau amor, tchau amor tchau.