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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Fui esquecido?


Saberá que a porta
ainda está aberta?
Melhor não saber:

melhor eu acreditar
na ignorância,
do que na confiança
que você talvez tenha
pra passar por mim e dizer:
Agora não.

- Caio Augusto Leite

Som de conchas


O menino e o mar,
o menino e suas conchas:
basta pôr no ouvido
para desolvidar
o mar perdido.

Quem dera as conchas
pudessem sussurrar
a voz de quem perdi
no areal, no cais, na vida,
nessa nossa vida sem sentido.

- Caio Augusto Leite

Obsoleto


Eis que sou as pedras
que não atiraram
em Madalena:

a curva que
o Titanic
não fez:

o freio que falhou,
o paraquedas
que não abriu:

a luz que não acendeu,
a bomba que não
explodiu:

sou a rima
que rimou,
onde não precisava:

sou feito de virtudes
inúteis:
sou fogo em caixa d'água.

- Caio Augusto Leite

A Dora


Dora
diz
que adora
a dor.

Mas que dor
a Dora pode ter
que é maior
que a minha?

Que é a dor
mais dorida,
a dor de querer Dora
e de Dora não querer
ser por mim querida.

- Caio Augusto Leite 

Escadarias


Queria ser escada
pra que tu
me escalasses
e eu te cuidasse
quando chegasses
cá no alto
já cansada.

E que eu pudesse
te derrubar
se me deixares
e te ver agonizar
rolando,
vestida de linho,
morrendo linda
na calçada.

- Caio Augusto Leite

SP 40°C


Ondas de calor
pela cidade.
São tantas,
não adianta
ventilador:

ondas de calor
pela casa,
luz em modorrenta
refração:

o sol chegou,
inundou,
e ele no sofá
- suado -
se afogou.

- Caio Augusto Leite

Dolores Duran


Dolores,
quanto dura uma saudade?
Uma noite,
uma estrela
que cai,
uma vida,
mesmo curta?

Dolores,
é preciso
mesmo viver
toda essa dor?

Toda essa dor
que custa tanto passar,
que passa dando passagem
a outras dores pra durar.

E por que não me respondes,
Dolores?

- Caio Augusto Leite

FAMA póstuma


Atiro-me do décimo terceiro
floor,
a velocidade
me transmuta em
light,
morro na hora
do rush:
The cars
param,
as pessoas
amam-me.

In the street nasce - onde já não estou - uma
star.

- Caio Augusto Leite

A estrela da tarde


Vésper,
estrela fingida:
quantas vezes
te vi no céu,
pontiaguda
e eras na verdade
um planeta sem cor,
sem luz, sem vida.

Tu foste o meu primeiro
e único amor,
Vésper querida.

- Caio Augusto Leite

O bicho que não serei


Gente,
se for bicho:
inconsequente.

Bicho,
mais que gente:
coisa quente.

Já nasce sendo,
andando,
brigando,
morrendo.

Deus, dê-me vida de bicho
em outra oportunidade.
Não, deixe-me gente
que ser bicho é demais
pra minha mediocridade.

- Caio Augusto Leite

Sonhares


Sonhei com tuas mãos,
não com o corpo todo.
Sonho por partes,
amanhã com teus pés:

E não é sempre o amor
um incessante juntar
de coisinhas perdidas?

Hoje vi teus olhos,
negros olhos de fim de mundo,
em você eu me acabaria:
de-sar-ra-zo-a-da-men-te.

E você, quando achará
as partes que perdi?
Quando acabará
com as minhas mortes,
que de te sonhar
tanto já morri?

- Caio Augusto Leite

Sem escala


É que a natureza não depende da gente,
a água, por exemplo, ferve no ponto
sem saber de Celsius ou Fahrenheit.

- Caio Augusto Leite

Ano-novo


As palavras são opacas,
mas é preciso que se diga
e que se siga:

Obrigado.

Obrigado pelo tempo
que se arrasta
e que nos empurra
ao "isto".

Obrigado a quem veio,
a quem veio e foi,
veio e ficou.

Quem foi
que me mudou?

O que de nós sobrou?

Restam as lembranças:
ocas.
E os planos:
falhos.

Mas existe o futuro:
caminhemos.

É preciso que se aceite,
que se deleite
no que está por vir
e que ainda é grande demais.

- Caio Augusto Leite

domingo, 23 de dezembro de 2012

Ratinhos brancos


Faço da língua minha cobaia.
Será que estou forçando demais?
Será que esmagarei o código
- tão frágil -
com a indizível simplicidade
do que é apenas Ser?

- Caio Augusto Leite

Como te tirar pra dançar?


Essa estranha vontade de falar,
mas falar o quê?
Eis meu caos:
ter a vasta língua portuguesa
e paralisar em gelo,

seria tão mais fácil
se eu pudesse dizer
- te dizer tudo -
com o silêncio.

- Caio Augusto Leite

Orelhas baixas


Apenas o anseio
de ligar-se ao outro,
trouxe tantas fichas
e não sabia
que agora só cartão servia

Voltou pra casa, mudo.
E além do mais, de nada adiantaria
ter cartões, todos os corações estão ocupados.

- Caio Augusto Leite

Frustração de um pessimista


"O céu não se cobriu de treva
e nem viramos poeira espacial"

era o que pensava,
deitado na relva,
olhando estrelas.

Olhando estrelas
e ainda triste,
pois sozinho.

"podia ter acabado..."

Uma estrela cadente
cruzou o céu:
íntima esperança,

mas o que veio foi
uma brisa suave
que nem conseguiu
mover a saudade do lugar.

Suspirou.

"onde anda você?"

perguntava-se, angustiado.

- Doía tanto ser poeta.

- Caio Augusto Leite

Pão de natal


Comia panetone
e jogava as frutinhas fora.
Tanto tempo te dando tempo
sem saber que eu era uva
em suas mãos.
E como uva passa,
passei, que me resta agora?

- Caio Augusto Leite

De alma seca


Tentei sonhar,
sonhei preás.
Sou homem
ou sou cão,

tenho ainda coração?

Talvez mais do que antes,
quero esses preás que saltam.

Não quero a máquina,
quero a lágrima
- mais urgente -
desses retirantes...

- Caio Augusto Leite

Depois da brisa


Gosto de vento nos cabelos,
desfaz de vez a forma
do que não quer ter forma

e tantos pentes passarão,
não,
a alma jamais amansará,

deixe-a despenteada

deixe-a

deixe-a

desvairada.

- Caio Augusto Leite