sábado, 15 de dezembro de 2012
Distraído
- Caio Augusto Leite
Feriado, abacate e consciência
Me deu vontade de falar sobre abacates. Mas não muito, pois me sinto cansado. Apenas me intrigou o fato de que tem gente que os come com sal. Elas são estranhas. Ou seria eu o estranho? É por achar o que come abacate com sal estranho que eu me torno humano. Pois não é assim que nascem os preconceitos?
Estado terminal
- Caio Augusto Leite
No meu tempo
- Caio Augusto Leite
Ilhamento
- Caio Augusto Leite
Meu crime maior
- Caio Augusto Leite
Impossível ciclo
- Caio Augusto Leite
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
O amor
- Caio Augusto Leite
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
E depois do amor
Agora nós vamos seguir em frente, não mais dois lado a lado. Mas separados. Ainda que te ame. Ou que você me ame. Sabia que a vida era uma tragédia e eu me espanto com ovos sobre a mesa, com cachorros ruivos, com rosas. E você gosta de filosofia. Você quer pensar como as coisas vieram parar no mundo. E eu tento sobreviver dentro desse mundo, mundo de liquidificador. Estaremos misturados, pra sempre. Ainda que a vida tenha coado nosso sumo. Beberemos e brindaremos a vida com outros sorrisos. Com outros braços. Tua boca, que boca é essa que jamais sentirei. E a minha que também não sentirás. A vida me anestesiou, a cada pequena tragédia foi me preparando para o que era certo. O final. Estamos no ponto final? Sempre podemos pegar o mesmo ônibus, com sorte e rever aquele amor secreto que guardamos em olhares espiados.
Como ontem, passei pela rua e a lâmpada piscava. Pensei em nós. Sabia que estávamos piscando. Hoje eu passei e a lâmpada queimara. Estava escuro e suas mãos foram pra longe. Você se apagou. Eu me apeguei. Eu sofreria mais um pouco, quem sair por último que desligue a luz. Sobrou pra mim a tarefa de soprar a pequena flama de uma paixão que se prometia eterna, e foi enquanto durou. Esses clichês cheios de poesia.
Quando escrevia pensava que podia te colocar dentro de todas aquelas coisas, agora eu sei que a arte é maior do que qualquer amor. Roberto estava certo, ficaram as canções e você não ficou.
E é tão pouco que posso falar. Que vai minguando as possibilidades da escrita. Da língua. Das nossas línguas separadas.
Agora vivo o Amor, sem ninguém por perto. E não tenho mais medo da vida e nem do perigo que é viver.
- Caio Augusto Leite
A entrada do mundo
Penteava-se. Moldava-se para sair. Tinha que ajeitar as curvas e dar limite aos seus poros para que o mundo não entrasse. Ser perigosa era sua salvação. E o seu medo era diluir-se. E por se pensar menor do que era, alongava-se com essas plataformas à la Carmen Miranda e com esse vestido vermelho que a acendia. E quanto mais se brilha, mais se ofusca. Não ser ela era também o seu segredo. O era. Pois se alguém se apaixonasse, não correria o risco de perder-se. Não teria obrigação nenhuma de amar, pois amada não era. E não é sempre assim? Ama-se primeiro o que não é. O amor era esse despentear-se. E para que os cabelos não voassem por essa rua, ela puxava com força os fios. Habitual agressão. Doce dor. Doeria agora, mas amanhã se perdoaria, quando visse aquelas outras. Aquelas outras que conservariam olheiras e noites mal dormidas. E ela dormia cedo, pra acordar cedo, pra dormir cedo. Tudo era cedo pra quem não se atrasa nunca. E ser assim era fazer com que tudo seja tarde demais, descobriria ao despertar.
Capaz de ser feliz, era. Mas como o tímido cantor que nunca soltou a voz, nunca saberia que podia sorrir. Que medo era esse, que havia nela e em mim, de lançar-se? Tem gente que jamais pula. Por isso não existiram e nem sei o seus nomes para citar exemplo. Outras precisam ser empurradas. A mãe pássaro não ensina o voo. Não ensina-se a sair do chão. Mas sim a não querer ficar nele.
Certo. Estava pronta, queria acreditar. E levantando-se cheia de uma pressa vagarosa tinha de ir. A porta era um convite ou uma sentença? Só havia a certeza de que era inútil não sair, dentro de casa também morria-se. E por não poder evitar, ia. E o primeiro passo lá fora era o instante de decisão e como torceu o pé na soleira da porta. E como caiu. E como ralou joelhos e mãos. E como soltou um grito de dor – o primeiro - e só por causa disso algo começava a cambalear num caminhar cheio de liberdade que só os bêbados têm. A vida entornava-se e embriagava-se de uma cadência que não se pode prever.
Pássaro fora do ninho.
Flávia. Agora ela tinha um nome. E as ruas também tinham. E as praças e as flores. Tudo era, ao mesmo tempo, estranhamento e reconhecimento do que estava ali parado. É preciso cair do alto, do salto, para ver as formigas no chão. Para ver-se a si. E ventava. E as linhas tão demoradas de ser construir foram caindo pelas calçadas. Despenteada, ela era ela. E o mundo, ela descobriu, não estava grávido. Não precisaria mais esperar, agora estava misturada. Contornos? Esse mundo é mesmo muito misturado. Agora não haveria jeito. Não tinha, ela, alguém que lhe tirasse do perigo de viver. Saberia não se unir às rosas? Bobagem, elas não falam. O perigo é ouvi-las. Precisava ser a vacilante lâmpada que não se apaga, mas que também não se acende para o pleno vazio. Realmente, ela estava imersa nesse perigo de viver. E, imitando Rosa, só posso dizer que viver é muito perigozo.
domingo, 4 de novembro de 2012
Ainda verde
Uma bela manhã. Mãe e filha caminhavam pela feira do bairro. Ela, por ser criança e ainda inocente, se espantava com a quantidade de frutas que havia no mundo. E aquilo não era nem metade do que existia. Um dia ela descobriria, que assim como os nomes de frutas, o amargo do limão pode ser sempre maior. Mas por hoje ela só se espantaria com o fato de haver maçãs verdes. Passou por elas e a mãe não mexeu um músculo. Queria perguntar se não iriam levar pra casa aquelas maçãs, mas sentiu que não devia. Guardava pra si a imagem das maçãs, como um assunto proibido que se torna preferido e precisa manter-se guardado para que ninguém mais possa gostar. Era a prática cruel do egoísmo. Tem uma bala pra me dar? Não tenho. Respondem com os bolsos cheios de balas cremosas, crocantes, deliciosas. Ela era tão pequena, cruelmente pequena. Ainda que não soubesse usar essa crueldade. Calava suas maçãs verdes. E seguia com a mãe que comprava bananas prata – como podia ser prata se eram amarelas? E banana maçã? E as bananas verdes, seriam na verdade bananas maçã verdes? Por que misturar as coisas que pareciam tão bem feitas separadas? E se uma banana era prata, podia-se pendurar no pescoço feito corrente ou nas orelhas feito brincos? Qual sentido da composição é o referente no mundo? E como cabiam tantos pontos de interrogação numa cabeça tão pequena? Talvez por ser pequena, ou por não se achar grande. A mente que se pensa grande, se defende e não deixa mais nada entrar, por achar que todo o resto é inútil. Como a mãe que não queria comprar maçãs verdes, pois achava que as maçãs vermelhas eram muito melhores – ainda que nunca tivesse comida as tais outras verdes.
E quando a mãe parou na barraca de maçãs vermelhas a menina não se conteve e perguntou “Pra que comprar maçãs, já temos tantas em casa, elas apodrecem” e a mãe como se precisasse explicar um mundo inteiro. Olhou com paciência de normalista. “Não é porque temos maçãs em casa, que não precisamos de mais. Você já imaginou se amanhã não existirem mais maçãs?” Era esse egoísmo que ela já experimentava ao ver maçãs verdes. Só podiam ser dela. Como quem ama e afaga, afoga e mata. Também mata-se de amor. Não por amor, mas pelo medo da perda. Mas poderia esperar, como ainda era pequena não sofreria a falta do gosto desconhecido.
Num dia repleto de descuidos, ela abriu as compras e ali estavam – prontas para o beijo da boca em sede – as suas (egoistamente suas) maçãs. Pelo resto da vida só comprou maçã verdes. Até sua filha perguntar “Não vamos levar peras?” e era preciso explicar tudo de novo. Pois ela ainda estava verde.
terça-feira, 17 de julho de 2012
Atropelado antes de te encontrar
Vou tomar banho, pego minha camiseta nova e minha calça antiga. A tolha está úmida. Ligo o chuveiro, as primeiras gotas estão geladas, mas logo o vapor invade o banheiro. A sensação é boa. Os músculos relaxam, está tudo bem. Cantarolo uma canção do Roberto, cheio de amor, estou feliz, vou te encontrar hoje. Passo perfume, penteio o cabelo, ligo a TV – ainda é cedo para sair. Sinto uma tristeza dentro do corpo, olho o telefone. Me dá vontade de discar para cada um dos meus contatos da agenda e pedir desculpas pelas coisas que aconteceram, rir das velhas piadas, devanear em nostalgias. Mas me dá uma preguiça. De novo nada passa na televisão, todos os contos são tediosos depois dos anos dois mil. Me dá vontade de fumar também, mas não quero chegar com as roupas cheirando fumaça, não quero preocupar você com meus vícios, eu não sou viciado. Três maços de cigarro por dia, dentes amarelados, crises respiratórias, mas veja bem, eu não sou viciado. Deu fome, deixo a TV falando sozinha e vou preparar um miojo – pois é, não ando me alimentando bem – mas não posso demorar. Um, dois, cinco minutos. Nunca fica pronto em três. Coloco o pó e como na panela mesmo, menos louça pra lavar depois.
Vai chegando a hora e eu tô tão nervoso, parece anos que a gente não se vê. Fico imaginando a roupa que você estará usando, se mudou o cabelo, se sentiu saudade, se vai demorar muito pra beijar minha boca, tirar a roupa e me chamar pro amor. Pensar não é bom. Queria deitar no sofá, mas tenho medo de cochilar e perder a hora. Queria sair agora, mas não quero chegar muito cedo, você pode pensar que eu estava desesperado pra te ver. Pode até ser verdade, mas não posso te dar esse gosto. E eu fico aqui só planejando minha vida, como se de repente a gente se acertasse e vivesse pra sempre numa cabana no meio do mato. Longe dessa poluição, dessa violência, desse gosto amargo na boca. Ontem mesmo acharam o corpo de uma mulher esquartejado na esquina. Não sei quem era. Disseram que era uma puta, como se isso fosse razão pra matar alguém, conheci putas mais dignas do que eu. Eu não sei por que às vezes fico pensando assim, como se estivesse escrevendo uma carta pra você. São planos demais para uma vida tão curta. É hora de ir ao seu encontro, meu amor.
Antes de sair arrumo a cama, vejo se o gás está desligado, fecho os vidros da casa, dou comida pro gato, desligo a TV. Pego o guarda-chuva, o céu está estranho hoje. Respiro fundo como se pudesse aspirar a coragem para dentro de mim. Como se pudesse ignorar os sinais da vida, o sinais que só apontam para nosso fracasso. Tudo é tão difuso nesses novos tempos, que bato a porta com um ar de despedida. Boto os pés na rua com a estranha (porém compreensível) sensação de que não volto.
- Caio Augusto Leite
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Flor paulista
Olho o telefone parado, como um convite silencioso para a um novo recomeço. Será que você usa o mesmo número? Ligo e dá ocupado, ligo de novo e de novo. Você se pendura demais no telefone, a gente brigava por causa disso. Resolvo regar as plantas, cozinhar feijão, cuidar dos passarinhos. O cachorro também está com fome. Esqueço de nós nesse tempo que estou ocupado. Zapeio pelos canais de TV e a mesma novela de anos atrás, programas de fofoca e comentários esportivos não prendem minha atenção. A campainha toca, olho pela janela e duas testemunhas de Jeová paradas na porta esperam, que esperem pra sempre, me jogo no sofá. A campainha ainda tocando e eu só pensando em palavrões que deixariam as carolas de cabelo em pé. Minha cabeça lateja, tomo uma aspirina, parece que o silêncio resolveu voltar. Paz.
- Caio Augusto Leite
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Novo amor
Duas horas depois, dois ônibus depois. Eis que chega ao ponto de encontro. Ele ainda não está. É preciso esperar mais, como se já não tivesse esperado a vida toda. E cada um que passa é seu rosto marcado de miragem, todo mundo é ele, mas ninguém o é. Os carros que passam não causam espanto e nem preocupação, ele vem de ônibus também. Ainda é cedo, nem sete horas. O céu cheio de tensão, entre o cinza da madrugada e o rosa-púrpura da alvorada. É o primeiro encontro, a barriga borboleteia e os pés estão agitados. Fecha os olhos e respira, tenta se acalmar, mas parece que piora. Vem uma vertigem, talvez pelo excesso de ansiedade, pelo frio da manhã ou pela fome que agora resolve aparecer. Abre os olhos novamente e parece que nada mudou. Talvez ele tenha esquecido, desistido, tenha sido assaltado, sequestrado, atropelado por uma carroça. Tanta coisa pode atrasar o amor, os pensamentos são os piores. Pensar no amor é dilui-lo em dúvidas rasteiras, em preocupações sem cabimento, em obstáculos que não existem. Não pensem.
Mas parece que ele vem vindo ali, não tem certeza, pois nunca o viu em carne e osso. Mas ele se aproxima, a conhece melhor, a ama há muito tempo. Como se tempo fosse medida para falar de amor. Todo tempo do mundo com tantas pessoas e não as ama. Tão pouco com ele e tanta saudade. Quem pode explicar essas contas impossíveis que o sentimento lança no vento? Essas incógnitas que possuem valor indeterminado. Um mais outro e o resultado pode ser qualquer coisa: ódio, indiferença, amizade, dor. Raramente: amor. Levanta, ajeita a roupa, tira a poeira do coração e abre os braços para um complexo abraço, os braços ainda se confundem, pois não se acostumaram uns aos outros e por isso não sabem o espaço que devem ocupar. Abraço embaraçado. Soltam-se cheios de vergonha, sentam no banco e olham a rua como se o outro não existisse. Ele põe a mão sobre seu ombro, ela cora. Ele tira. Ela olha com interesse. Os dois se conversam. Palavras nulas, vento no cabelo, olhos dicionarizados.
Agora precisa falar, não pra transmitir conteúdos importantíssimos. Mas só para poder descobrir o timbre do outro, os maneirismos, as gírias, o hálito em forma de fumaça colidindo no rosto cheio de frio. Fala do clima, do dia anterior, da vida, dos planos de futuro, das pedras na rua. Distraidamente as mãos já se tocam, ganham certas intimidades, trocam temperatura. As palavras cansam e um silêncio cheio de proposta contamina o ar. Alguém precisa se mexer. Ele tenta, hesita. Ela tenta, hesita. Os dois tentam, hesitam. Parece difícil romper o laço da amizade. Uma borboleta vem voando, o rosto dele se aproxima, bate as asas com tranquilidade, a boca vermelha, vem chegando no canteiro, tudo tão perto, a flor amarela, milímetros de distância, a borboleta pousa na flor.
Tudo certo, tudo bom, todo o tempo escorrendo pelas mãos suadas. O bem-estar acelera os ponteiros e já é hora de partir. Ela vai pra lá, ele pra cá. Um último aceno, tão tímido que quem os viu de longe jamais poderia imaginar que se queriam tanto. Ele sobe no seu ônibus e a vê caminhando tranquila e mais leve do que nunca. Ele vai sorrindo pelo caminho, cheio de esperança e lembranças do que acabara de viver. O perfume dela em sua roupa sairia logo, mas a doce fragrância do amor novinho em folha ficaria em sua pele, em sua alma e em suas palavras um pouco mais – talvez pra sempre.
- Caio Augusto Leite
terça-feira, 5 de junho de 2012
Mariza e Heitor
E já não somos mais o casal apaixonadinho que fomos por tanto tempo, já não usamos mais os nossos apelidos carinhosos que não passavam da primeira letra de nossos nomes. Você era M. e eu seu H., assim mesmo, na coincidência estranha que deu para Mariza e Heitor o indicativo sexual da espécie, homem e mulher. Éramos realmente feitos um pro outro, acreditei por muito tempo nisso, você também, todo mundo acreditava. Nosso papo era bom, nossas ideias batiam, tínhamos gostos parecidos e outros totalmente opostos que mantiam a balança da vida cotidiana numa medida aceitável. A transa era boa pra caralho, sério, você encaixava direitinho, o prazer minava nossos corpos de uma forma que jamais imaginei possível.
Mas agora você tem o seu engenheiro civil, seu homem importante, seu grande edificador de cidades. Talvez ele possa construir todos os sonhos de concreto, mas poderá erguer seus sonhos de flores coloridas, como eu erguia pra você? Saberá pintar suas manhãs de sorrisos, como eu pintei? Sei que parece orgulho meu, mas pense bem, haverá alguém melhor no mundo pra você, ou alguém que chegue perto disso? Não adianta, eu sei que um dia, quando cansada do sexo frágil e mal feito, suas pestanas fecharão e terão em mim, na escuridão, a figura plena de gozo.
Não culpe só a mim, sua voz responde na minha cabeça, você também foi esquecendo de me dar carinhos, de enrolar meus cabelos, com os dedos, no meio da noite enquanto assistíamos um filme qualquer na televisão. Dos beijos, dos desejos, das palavras românticas, quando foi que você se tornou tão realista? Não sei explicar nossos desacertos, nossa ruína particular, nossa pequena tragédia burguesa – já não há Romeu e Julieta, de certo deveríamos ter morrido e eternizado nossos amores nos jornais que não entenderiam nada, pois nunca leram peças trágicas. Então foi melhor assim – puta clichê – mas é a realidade. Sei que não será feliz com a magrela que arranjou, com seus dezenove anos, os seios pequenos apertados numa blusa do Piu-Piu, a voz pior que a da mulher da Top Therm e cérebro, será que ela tem?
Eu olho minha menina e não me apetece mais o coração e nem o corpo, digo a ela algumas palavras de despedida, há choro, há incerteza, há medo. Mas ela vai embora de mala e cuia. Não há mais possibilidades de viver esses relacionamentos bambos, que tendem a cair nos abismos do cotidiano. Do outro lado da cidade você também manda embora seu engravatado que te levava pros restaurantes mais chiques da cidade, sei que sente saudades do cachorro-quente do centro. Deito no sofá, suado, de regatas e samba-canção (toquem um samba-canção!) tô um caco. Relaxa, amor – ela invade novamente meus pensamentos – meu rímel já borrou pelo rosto, caída no chão da sala admirando o teto, a lâmpada parece que vai queimar – um fino fio de argônio, como também rebentou o nosso amor. E separados por orgulhos parecidos a solidão veste nossos corpos, contemporânea desgraça, maior que a morte, menor que a vida – o meio termo das ações onde o tédio mora e a tristeza se consagra. Com a cabeça embaralhada já nem sei se sou eu ou se é você que pensa: ainda te amo, talvez ambos.
- Caio Augusto Leite
domingo, 3 de junho de 2012
Faz tempo
Eu deveria ser cronista, sentado aqui nesse mesmo de banco de ônibus todos os dias, quantas histórias não passam sem notícia? Quantos amores desenganados, amizades feitas e desfeitas, corações felizes, homens adúlteros, algumas amantes. O acento reservado pra idosos então é um prato cheio! Ali confortavelmente acomodados bumbuns que já viram bastante coisa, do tempo em que bumbum ficava escondido num maiô muito esquisito. Mulher separada não prestava “Essa é puta” diziam entre cochichos. Se demorasse pra casar... Essa vai ficar pra Tia. Os anúncios eram feitos no rádio: sabonetes, banha, discos de vinil.
Os homens andavam de terno e chapéu, paravam em cafés sociais para colocar os assuntos de homem em dia, Bandeira me contou. As crianças não podiam ficar até tarde na rua, não. Algumas começavam a trabalhar bem cedo, ainda nem existia essa coisa de trabalho infantil. Tem muita lei moderna hoje em dia. Eu acho que naquele tempo era bem melhor, não se falava de crime, crime era roubar galinha no quintal da vizinha, assassinato? Uma vez por ano e olhe lá. Homem tinha pé no chão, não ficava criando engenhoca maluca pra querer pisar na Lua, eu não acredito muito nisso, acho que é plano pra enganar o povo, nas estrelas quem mora é Deus.
E os jovens de hoje então? Falam tudo errado, essas coisas de celular, de computa... sei lá quê, eu não entendo nada disso. Ah, pra que tanta parafernália? Uma máquina de escrever dava conta de tudo isso, as coisas importantes ficaram perdidas em algum lugar. Quem quer tirar foto de pomba voando? Filmar uma mulher caindo na rua? Nem nossos tombos mais são poupados. Se cair não adianta sacudir a poeira e fingir que ninguém viu, vai ter um malandrinho atrás de uma moitinha registrando tudo. Falta de educação! Ai se no meu tempo tivesse isso, meu pai comia de cinta, ajoelhava no milho, não tinha essa moleza não!
Mas veja só, meu ponto chegou. Ah, eu queria ser cronista, mas fico tanto tempo pensando na vida que me esqueço de viver, acho que no meu tempo era melhor viu, hoje em dia tem muita doença de memória, deve ser culpa da poluição. Ah, deixa pra lá viu, o jeito é ir pegar minha aposentadoria, porque esse negócio de arte não enche barriga não e já faz muito tempo.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Paixão
Um barulho de vidro quebrando e eu desperto de repente, cochilei, pesquei – como diz o popular. Meu olhar vaga pelo quarto e ela não está mais, o lençol apagou, o sol acendeu. Levanto e sinto uma dor aguda nos pés, era a taça que havia caído, quebrado, me acordado pra realidade. A marca de batom ficou espatifada pelo chão em mil cacos, mil beijos refletidos, mil beijos partidos, perdidos. Um ventinho frio como a morte entra pela janela, os meus lábios estão frios, estavam anestesiados. Anestesiado estava o coração, e eu ainda sou jovem, jovem demais pra entender o quanto vai doer a desilusão de uma paixão, da primeira paixão. Por enquanto estou suspenso no espanto, mas logo vem a punhalada que afundará em meu peito, pouco a pouco, no correr dos anos. Na vida, só se morre de amor, de paixão a gente sofre. Vênus foi embora, Vênus nunca esteve.
- Caio Augusto Leite
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Papo au café
domingo, 18 de março de 2012
Sobre verso
Ontem vi versos dentro de uma gaiola. Tristes, sem penas, bicos quebradiços. Pareciam doentes. Fiquei com dó dos versinhos. Achei o cúmulo da ignorância, não merece ser lido o poeta que faz versos exclusivos. Quem tranca poesia merece a morte, ou um pouco mais de sofrimento.
-Sai dessa! Liberta esses versos daí! Verso quer sexo, precisa procriar, verso é bichinho em extinção. De raro em raro vejo um bando voando pro Sul de alguma prosa:
Pois já não encontram poemas para morar,
nem de amor, nem de guerra e nem de paz.
O verso está morrendo, mas eu não quero!
Viva o verso que explica a vida no universo:
- Gênesis, Pasteur, Panspermia!
- Caio Augusto Leite