quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Poesia: Morte de Clarice Lispector

Eis aqui um curto porém singelo e emocionado poema feito por Ferreira Gullar na ocasião da morte da escritora Clarice Lispector em 1977.

"Enquanto te enterravam no cemitério judeu
do Caju
(e o clarão de teu olhar soterrado
resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção de Botafogo
as pedras e as nuvens e as árvores
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós "


Ferreira Gullar

A fonte do colibri

Num cantinho de mato, no remoto presente de um lugarejo quase sem progresso, nascia uma fonte em que todos os dias três pequenas aves iam bebericar a água límpida.
Uma era um canário da terra, amarelo vivo, refletindo em sua tonalidade toda vivacidade da mata. Outra um sanhaço, no seu azul metálico era um pedacinho de céu aos olhos de quem via. Por fim havia um cuitelinho quase cinza, com listras verdes, nada muito especial.
Os dois primeiros quando surgiam do manto espesso de folhas e galhos, traziam a si todos os olhares, as águas paravam, os insetos pousavam e as flores se abriam. Só que o cuitelo passava despercebido, era o que pensava.
Em um dia de Maio, cansado de tanta desatenção, o pequenino não voou para refrescar-se na fonte. Então os seres arredor ao notar sua ausência não sorriram como sempre. Ali do meu lugar privilegiado entendi que sem o ligeiro bater de asas do cuitelo, a beleza dos outros dois estava desfalcada.
Voltei para casa, não mais fugindo e nem escondendo minha beleza que completava os que viviam ao meu lado, e que precisavam de mim. Assim como a fonte precisava do diminuto colibri na sua intocada e essencial imagem de ave-pintura.


28/09/2010 - Caio A. Leite

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O carro na noite

Vinha da janela entreaberta do escritório um vento que pronunciava tempestade, a brisa enregelou meu corpo num arrepio involuntário. Levantei-me para trancar a vidraça, da mesma podia observar a rua e o negrume da noite avançada. Apenas uma luz de lampião com alguns insetos de calor me diziam que havia vida naquela escuridão.
Um trovão, e um carro cruzou a rua em disparada em uma curva perigosa que traçou, as marcas dos pneus ficaram marcadas no asfalto. Rodou uma, duas, três vezes e meia e bateu com violência no portão da casa em frente. Num solavanco meu coração me impulsionou ao telefone pronto pra discar a emergência.
Mas algo dentro em mim paralisou meus músculos. De dentro do carro saiu um homem alto e uma jovem ruiva num mini-vestido carmim, sua pequena bolsa barata cintilando aos faróis traseiros do carro enquanto fechava o porta-malas que abrira na colisão.
Luzes se acenderam no domicílio do acidente, o rapaz disse algo para a moça, que rapidamente correu para um beco próximo. Ele também tratou de desaparecer (provavelmente marcaram um lugar de reencontro).
Ouviu-se o grito de uma sirene indo e vindo no vermelho-azul-vermelho sem fim. Parou em frente a casa, aproximou-se da senhora de robe que por fim chegara aos portões devido a lentidão da idade.
O guarda conversou por breves dois minutos, ligou uma lanterna e anotou o número da placa. Ligou a viatura a partiu em busca das duas personagens da cena que presenciei da alta janela de minha humilde casa. Fiquei imaginando o que haviam feito para atrair os homens da lei. Mil pensamentos passando por minha mente criativa, enquanto colocava o telefone que ficara o tempo todo em meus punhos por uma ambulância que não veio. Voltei aos meus afazeres e a chuva precipitou-se, como se tivesse espiando toda cena como eu, para depois desabar.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Noite de paz

Estava acabando Outubro, mais uma vez na boatezinha carioca. Fumava um cigarro distraído o copo de uísque pela metade. Alguns cochichos apressados denunciavam um começo de impaciêcia. Onde estará a cantora e seus enormes olhos?
Já começava a batucar os pés também num gesto incosciente de nervosismo. Porém das coxias vagarosamente surgia Maysa com um semblante diferente.
Aproximou-se do microfone, tocou-o de leve. O olhar para o chão amadeirado. Sua boca abriu-se e a língua moldou as cordas vocais num melodiar melancólico.
Rogava por uma tal noite de paz*, lentamente ela acabava seu teatro, enquanto uma lágrima fina rolava misturada de maquiagem, parando próxima a sua boca vermelha. Ela limpou cuidadosamente e me olhou. Seu olhar me atingiu em cheio então compreendi.
Entendi que não iria ao show dela hoje, não iria amanhã, não iria jamais, sua voz calou-se. Dolores havia partido.


Caio A. Leite 26/09/2010

* A música: Maysa - Noite de paz

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Ainda verão

Chuva fina cai sobre
o quintal.
É inverno em São Paulo.
A garoa é fria.
Todas as estradas
ficam escorregadias.
As pessoas tiram
as blusas do armário,
bebem chocolate com
bolo quente.

É inverno, e ainda
não chegou a hora.
O gear que atinge
as camadas externas
não me aflige.
Estou protegido.

Agora é inverno,
queiramos ou não.
Mas por dentro das
almas dos bardos
errantes, por hora
é verão.

Caio Leite 3/8/2010

terça-feira, 20 de julho de 2010

Canção do último pensar

O desastre é imaginário.
Puramente idealizado
na mente dos suicidas.

Os suicidas são os
que veem o mundo
na verdade crua.

E já não podem
mais se enganar
na ilusão de
menina pura.

Ao som das vagas,
tragédia!
No outono de folhas
doentes,
comédia!

Se não a vida
um teatro, um
cinema.
Se não a vida
uma vírgula na
crônica do Universo.

E longe de toda
as abominações,
viaja a merencória
canção. Rasgando em
noite utópica o
dia de guerra.
A canção do
último pensar.

Das últimas estrelas
a rezar pela volta
do poeta...

20/07/2010 - Caio Augusto Leite

quarta-feira, 7 de julho de 2010

CAZUZA

20 Anos

Ontem ao ouvir
sua voz serena,
louca, grito
transgressor.
Pensei no futuro,
futuro que não pode
ter. E que faltou
pra preencher o vazio
que há no espaço
que ocupou.

Ontem senti sua
presença, vi
sua bandana
pendurada na porta.
E seu jeito de falar
calmo quase rimando.

Pude sentir cada passo
da tua dança, a dança
da vida. Sua presença
ainda me completa
nessa impaciência
minha de te encontrar.

Faz algum tempo
que partiu.
O poeta, trovador
da dor.
O lutador
invencível,
invisível
à todos perigos
de viver.

Ontem eu chorei
uma lágrima
solitária.
Um pequeno
gesto de pesar
e saudade.

Se a saudade
é o amor
de quem está
longe.
Estou cheio
de amor.

A cada minuto
que paro
pra te escutar.
Sempre valerá
a pena.
Exagerado poeta
de Ipanema.

Caio A. Leite - Daqui até a eternidade, num trem para as estrelas...