segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Gesso

Esta minha estatuazinha de gesso, quando nova
- O gesso muito branco, as minhas linhas muito puras -
Mal sugeria imagem da vida
(Embora a figura chorasse).
Há muitos anos tenho-a comigo.
O tempo envelheceu-a, carcomeu-a, manchou-a de
[pátina amarelo-suja.
Os meus olhos, de tanto a olharem,
Impregnaram-na de minha humanidade irônica de tísico.

Um dia mão estúpida
Inadvertidamente a derrubou e partiu.
Então ajoalhei com raiva, recolhi aqueles tristes fragmentos,
[recompus a figurinha que chorava.
E o tempo sobre as feridas escureceu ainda mais o sujo
[mordente da pátina...
Hoje este gessozinho comercial
É tocante e vive, e me fez agora refletir
Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu.

- Manuel Bandeira

As três meninas


Há muito abandonei meu lar. A casa em que passei alguns momentos de infância. Ali construí castelos, montei festinhas, tomei chá com ursos, beijei príncipes vindos de cavalo branco. Ali naquele pedaço de quintal eu vencia a solidão que me angustiava e me prendia. Sabia ser feliz – sabia muito ser feliz. Mas por motivos irrelevantes para a criança que eu era, me vi dando adeus aos sonhos que ali plantei bem do lado da laranjeira frondosa. Fui-me então, em meio a lágrimas e corações partidos, para o desconhecido. Cheguei ao novo lar, distante, apertado, pequeno para conter o meu querer. Não cabia no novo espaço todos os sonhos e nem todas as esperanças de uma criança tão inventiva como eu. Expeli de mim coisas que eu não sabia de onde vinham, mas que saíam do mais íntimo de mim - foi a minha primeira partida, puramente física.
Há pouco tempo passei pela antiga moradia e não havia mais nada. Pelo quintal tão grande, para a pequena criança de outrora, foram erguidas paredes de concreto frio. As árvores foram arrancadas, junto com meus sonhos mais puros e inocentes. Agora ali se encontravam dois grandes sobrados – era a natureza virando dinheiro – era o passado virando futuro. Meu coração doeu, minhas mãos tremeram, minha voz embargou. Ninguém tinha o direito de podar minhas memórias dessa maneira. Ninguém tinha o direito de quebrar meu coração dessa maneira. Quem ele pensa que é? Era preciso se reerguer dessa traição amarga – foi a minha segunda partida, dessa vez puramente emocional.
Hoje deixei minha casa, sob falsos pretextos, para plantar novos sonhos em terras tão distantes. Era eu querendo ser criança novamente, querendo brincar de ser feliz, brincar de conto de fadas, brincar de amar. Era eu querendo suprir as faltas que tive – Freud explica. Bati a porta de casa e fui-me, corri pelas ruas esburacadas, tomei chuva, tomei sorvete, escorreguei num barranco coberto de lama, era bom ser criança novamente. Fui criança nesse instante, pois era a última vez que poderia ser. Sequei o corpo, lavei a alma, corri de encontro à boca feliz que me engolia e me fazia outra. No abraço, no toque, no beijo molhado e então a criança deixou o medo. O tempo passou – girou num cata-vento. Era o corpo alheio um novo lar que se formava. E ali poderia plantar quantos sonhos quisesse, o solo era fértil. Ali venceria quantas guerras fossem declaradas. Essa foi minha terceira partida – de menina para mulher, deixei a boneca e fui pra vida.

- Caio Augusto Leite

domingo, 13 de novembro de 2011

Poesia de flor, mas não seria de amor?

E do toque urgente e mesmo assim calmo,
um punhado de sementes caiu no meu poema.
Da saliva doce e ácida, brotaram flores tão formosas.

Em meus versos um jardim surgiu, lindo e forte.
E o néctar atraiu abelhas, borboletas
e do coração e das estrofes se desfez a dor.

Quem sabe o quanto viverão as flores?
Eu que não quero saber, deixo o tempo responder.
Falei tanto de flor, mas sabes que são apenas metáforas.

Toda fauna e toda flora que invoco aqui,
são só pretextos para o que quero lhe falar.
Tudo em minha lírica só quer saber do teu amar.

E disse-me um velho amigo, de terra distante,
de língua irmã e nome de gerúndio.
- É assim mesmo, caro poeta, a poesia só sabe disfarçar.

- Caio Augusto Leite

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

É contra? Conta outra

Sou contra o do contra.
Quem é do contra que seja por conta.
Mas não seja contra a minha vontade
de ser contra o contra.

Quem é a favor, também é contra o contra.
E quem é contra é a favor do contra.
Eu não posso ser contra, sem ser a favor.
Eu não posso ser a favor sem ser contra.

E num rodar infinito de possibilidades
vou sendo contra. Vou sendo a favor.
Vou sendo nada contra, mas quem for contra mim
que me aguente pois serei a favor de mim.

De ti eu serei contra!

- Caio Augusto Leite

Poesia desconcreta

E andando por ruas indizíveis,
reparei no sólido concreto das calçadas.
Que estranha substância era essa
que corpo inteiro e ao mesmo tempo separado.

Calçadas de cimento queimado.
Calçadas de piso, de ardósia.
Algumas intactas, outras rachadas.
Limpas, sujas, tantas calçadas?

Não, é só uma! Com tantas partes.
O poeta é calçada, retalhado em versos.
Fragmentado em estrofes e único
no seu lirismo multifacetado.

Quando termino meu texto
coloco uma placa sobre meus versos novos:
Não pise, poesia fresca.
Mas leia, para que ela não endureça.

- Caio Augusto Leite

domingo, 6 de novembro de 2011

Corpo de poeta

No quase-verde dos meus olhos,
vi meu quase-reflexo.
Me achei bonito pela primeira vez.
O talhe do tempo me fez bem.

Não, não era uma beleza fundamental.
Não era uma beleza heróica,
de Aquiles ou Heitor.
Era a beleza da expressão.

Suspenso na imagem difusa pairava o poeta.
Que mesmo longe da beleza canônica sorria.
Um sorriso de seis pés, repleto de ironia.

Sabia ele que tal beleza se eternizaria,
pois a poesia em teu corpo habitava
e de estrelas a pele nua lhe vestia.

- Caio Augusto Leite

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Florescendo ao amanhecer

Podaram todos os meus direitos:
não se pode mais chorar,
não se pode mais querer,
não se pode adoecer.

Amar então, nem pensar.
E me comparam aos felizes homens,
que são felizes por serem homens.
Triste de mim, que já não sabe quem é.

Poderia ser vida, se houvesse paz.
Poderia ser lindo, se houvesse luz.
Poderia ser grande, se houvesse chuva.
Mas me plantaram nesse solo pobre.

Eu que nunca pedi muito, rezo, imploro: polinizem-me.
Espero sem muita convicção o nascimento da flor.
Mas na fria madrugada, à espera de um ônibus qualquer,
sei que perderei a minha preciosidade.
O perfume da dama da noite ainda no ar.

Abrindo pétala a pétala
o androceu varão e fértil.
Daí virarei homem.
Beijo na estátua!

- Caio Augusto Leite