sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Passionificação

Entrego o trigo das paixões.
No moinho do teus braços,
girando os sentimentos,
se produz farinha rósea.

Coloque Leite, beijo, fermento.
Sove a massa, asse ao peito.
E que do terno coração
se faça amor, se faça pão.

- Caio Augusto Leite

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Renovação

Enfim o fim.
Fim de quê?
O fim de mim.

Se me acabo e morro,
é que cansei de não me ser.
E me refaço de novo, e novo
só pra não morrer de te querer.

E percebo vendo agora
que a felicidade é carta marcada.
Que só deixarei de ser só
quando deixar de ser só de mim.

Enfim o fim.
Fim necessário.
Para que a tristeza não vire rotina.

Abro a janela de minh'alma.
E a luz que adentra tira o mofo,
dando vida aos sentimentos que escondi.

- Caio Augusto Leite

Retrato contemporâneo

Uma grande multidão
e mesmo assim só.
Os outros são ninguém,
apenas manequins nas ruas.

Entro numa fila enorme,
nem sei onde ela vai.
Encontro antigos amigos,
nem lembro seus nomes.

Chego em casa, chove lá fora.
Sinto um frio particular.
Arrepia-me uma saudade,
saudade de gente.

Eu não sei se a vida passou
ou se nunca houve vida.
Tinha tanto tempo, o relógio ingrato.
Tinha tanto amor, o tempo ingrato.

A rotina é meu guia,
o acaso é meu trunfo.
O talvez a esperança
e a espera o meu futuro.

- Caio Augusto Leite

A linha

Num extremo a exatidão numérica.
No outro o sentimento puro.
Entre os pontos uma linha.

Caminho estreito, fio de navalha.
Estrada que liga os dois opostos.
Linha tênue de algarismos e paixões.

Se rompe a linha, rompe a vida.
E o que era vestido de festa,
vira sudário - aurora mortuária.

É por isso que cuido da linha,
mesmo que inutilmente.
Um dia Atropos afia sua tesoura.

E então toda a luz da vida
será absorvida d'uma vez
pela escuridão do passamento.

- Caio Augusto Leite

Lirismo desmedido

O poeta não dá certo depois da meia-noite.
O poema se perde no meu sono.
O meu lirismo dorme.
A rima cansa.

Não vou escrever de madrugada,
não vou escrever mais nada.
Escrever dá trabalho, cansei.
Ler dá trabalho, vou cansar você.

Esse poema também não deu certo.
E olha que nem estou com sono.
Acho que o problema sou eu e não a hora.
Ando desleixado, ando sem vontade.

É tudo culpa dessas paixões
que me consomem, que me iludem.
Não quero mais saber desses versos presos,
eu quero é transbordar num lirismo desmedido.

- Caio Augusto Leite

domingo, 4 de dezembro de 2011

Talvez amor

Enfim a solidão me deixa.
Como roupa de festa - felicidade.
Como brilho de estrela cadente.
O amor batendo na porta.

Sussurros, frases ao meio, toques.
O coração ultrapassa o limite de velocidade.
A sensação é de morte, mas é vida que se faz.
O vento sopra lá fora, o suor gruda.

Os corpos grudam, o amor é quente.
A ladeira é grande, os carros passam.
As mãos se enlaçam, o dia rompe.
A vida grita, e tudo é verde.

Verde como a densa mata.
Como o profundo abismo dos meus olhos.
Ou mesmo azul como o mar do Rio de Janeiro.
Como as íris dos teus olhos, em que me afogo
e me faço poeta e feliz demais.

- Pegue essa folha, leia meu poema.
Leia minha alma, leia minha senda.
Se nada lhe interessar rasga a folha,
rasga a alma e me deixa navegar.

- Caio Augusto Leite

sábado, 3 de dezembro de 2011

Para os leitores vertiginosos

Não seja o leitor do quebra-tédio,
do coração quebrado.
Não seja o escritor da vertigem
e da dor de estômago.

Não seja leitor do nada.
Não seja escritor de vento.
Leia e se construa.
Leia, construa e então escreva.

Não use só a caneta, use também uma espada.
Perfure a folha até seu núcleo.
Coloque ali seus temas, cuidadosamente escolhidos.
Por fim enterre-os com tinta e figuras.

Caro leitor, não acredite na superfície do papel.
Por baixo da concretude, o núcleo literário.
Um prédio de palavras, em cada janela um semema.
E em cada sala seu próprio entendimento.

- Caio Augusto Leite