domingo, 6 de maio de 2012
Poliamor
O amor com várias faces,
poliedro de enganos.
- Eu te amo meu amor,
- Eu também, querido.
As malas na rua,
o ódio no coração.
Será que ele gosta de mim?
Que dúvida cruel.
Te admiro de longe,
nem sei seu nome.
Brigo, grito, quebro a louça.
Mas volto pros teus braços.
Amor natural, Adão e Eva.
Tudo pode, orgias fantásticas.
Amor etéreo, ama-se o mundo.
E vive de saudade.
O amor com várias faces,
quebro a minha toda vez.
- Caio Augusto Leite
Desejo de modernidade
A quimera me é injusta,
nenhum poema me eternizará.
Nenhum verso pro futuro.
Sou o poeta das coisas antigas
- romântico mal feito,
moderno desajeitado, jamais serei.
Eu quero ser o albatroz do convés,
mas minhas asas orgulhosas
tendem ao céu límpido
e azul - tão azul.
Traio toda a escola,
todo o programa.
Não me enquadro em nenhum quadro.
Podia o tempo correr pra trás,
daí meus versos fariam sentido
e minhas lutas vitoriosas.
Podia eu morrer agora
e renascer feliz,
mas com dosagens de tristeza.
Nascer forte,
nascer com saúde,
nascer moderno de uma vez.
- Caio Augusto Leite
sábado, 5 de maio de 2012
Viver é melhor que sonhar
Sono bate,
esmurra,
mata.
Que sonhos
mortais,
fatais,
suicidas.
A vida me puxa,
me tira da cama,
me põe na rua.
A luz desse sol,
a cor desse concreto,
o beijo dessa mulher.
Sono não vence,
sonhos não cabem.
É que viver é muito bom.
- Caio Augusto Leite
Chega de promessas
Eu vou,
eu chego,
eu quero.
Me espera,
me ame,
me queira.
Mas eu segui em frente,
esquina pós esquina,
a vida toda pra lá
do horizonte.
O homem que vive logo aprende.
Desconfia de tudo,
desdenha do mundo
e do futuro.
- Caio Augusto Leite
Bala achada
Só vi o risco da bala que já fora.
No ar ainda a luz, o cheiro, o som.
Em qualquer peito a certeza
de que há a morte.
Em qualquer braço,
nuca,
perna.
Sei lá quê.
Só vi o risco da bala,
mas de repente me baleia
outra bala sem risco,
a vida é o risco.
Não deu tempo do futuro
e nem de criar certezas.
Fui-me antes de entender
e no ar ficou o som que outro poeta ouve e glorifica.
- Caio Augusto Leite
sexta-feira, 4 de maio de 2012
Apocalipse por dentro
Asas de borboleta
e folhas de outono
passam pelo meus olhos,
a tétrica imagem da morte.
Bicos de pomba,
latidos de cachorro
viajam no espaço
da destruição.
Parece o fim do mundo,
vento devastando telhas,
águas bravias, chuvas tolhem vidas.
Nesses dias de amargura,
a idílica paisagem voa
num espasmo de ilusão.
- Mais um verso, evito o soneto.
- Caio Augusto Leite
Eu, o mundo
Augusta angústia
invadiu o peito aberto.
Sem pedir licença,
pois de fato é divinal.
Arrematou minh'alma
e meus sonhos mais profundos.
Tudo se fez fugaz
em sua presença.
Augusta angústia
perfurou o coração.
Doeu a vida,
só eu sei a dor que foi.
Comeu o amor
e não apreciou o gosto.
Amargo sentimento,
péssimo sabor.
Augusta angústia,
caiu no sangue.
Viral de morte
no corpo todo.
Venceu o fígado,
os rins, as bainhas de mielina.
Dependência total,
droga minha.
Augusta angústia,
coisa de Álvares
no poema de Augusto.
Tosse, tosse, tosse.
Cobriu minha voz
de ruído tísico.
Hemoptise,
diga trinta e três:
- Dezoito, dezenove, vinte anos.
Os poetas duravam pouco.
Mas queria ser mineiro, calma de vida,
ver os cachorros passando pela janela de Itabira.
Augusta angústia,
precipitação ou realidade?
Os gozos da vida perderam
toda intensidade.
Que vida torta que ficou,
a moldura de marfim é inútil.
As rimas raras não dão jeito,
sou o mais homem dos homens.
Que se exploda a guerra,
o que importa sou eu.
Ninguém é mais triste,
ninguém tem mais temores.
- A augusta angústia é minha.
- Caio Augusto Leite
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