sábado, 2 de junho de 2012
Cantos pra depois da guerra
Não construirei muralhas de versos
para barrar o inimigo distante
e nem farei canhões de rimas
para matar o traidor da pátria.
Cantarei o amor, a flor, a banana-da-terra.
Vai, diz que eu sou alienado ao mundo,
mas me diz, de que serve salvar o mundo deles
se não poderemos salvar o mundo de nós?
Deixarei a terra macia,
para plantar os mortos
- nossos e deles -
e para que cresçam
árvores sadias
para matar a nossa fome
pós-guerra.
Cantarei a casa, a mãe, o cachorro,
tudo que estará vos esperando,
soldados da paz, para reconstruir
o mundo mais uma vez,
em cada varão um Adão
e em todas as mulheres, Eva
- sem maçã, é claro.
Não cantarei a guerra,
guardarei minha voz para o branco futuro
que juntos vamos escrever.
- Caio Augusto Leite
O caminho da montanha
Esses meus braços que agora andam pensos
já levaram um enorme buquê
de rosas vermelhas e olorosas.
Cada flor era uma paixão ardente,
no peito fixadas alimentavam
os sinceros desejos dessa vida.
Quanto mais andava, mais arenoso
meu seguir, mais difícil, mais estéril.
O culpado disso tudo é o tempo.
Ah tempo, você que passou a mão
com tanta violência pelas flores
que nos meus braços fracos habitavam.
E aquelas pétalas não resistindo
foram morrendo e desenhando um rubro
rastro por esse triste chão de sal.
Uma montanha surge, se agiganta
com a sua sombra totalizante.
E dentro dela nós somos ninguém.
Nela encontro meus tristes semelhantes,
mas eles não me reconhecem mais
já não existe flor, nem coração.
Eu sento no chão e me uno ao nada,
meus olhos fecham, minha boca seca
e se apagam todos os meus desejos.
Meus braços estão pensos nesse vácuo
e os pensamentos moídos em pó
são a prova da vida decadente.
Vida? Ainda existe essa palavra?
Aqui na sombra o tempo não permite
que essa coisa som seja produzida.
E lá no começo desse caminho
meu filhinho nasce num mar de rosas
- berrando a vida com seus pulmões novos.
Mas mal nasceu já começa a dar passos
nessa sinuosa e truncada estrada
que o levará direto pra montanha.
- Caio Augusto Leite
Festa
Numa folha em branco desenho uma linha
e penduro nela mil bandeirinhas,
ponho fogueiras,
estrelas,
morenas...
Um garoa fina,
balões,
canções,
quadrilhas...
E nesse desenho eu me pinto de sorriso infactível.
Só assim sei ser feliz,
no silêncio dum desenho
ou na emoção contida de uns poucos versos.
- Caio Augusto Leite
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Lição noturna
A cortina treme fracamente
como se o soprar de um moribundo
a empurrasse nesse fantasmagórico movimento.
A escuridão é de tal ordem
que a noite ficou sólida,
não existe ninguém pra lá
dessa janelinha...
Tenho sono e medo de dormir,
que irmão ficará de vigília ao meu lado
enquanto tento sonhar mais uma vez?
Mas a treva a cada instante é mais espessa,
comprime a cidade, a casa, meu corpo...
Aquele menino sentado no banco da escola não tem amigos,
seus pés não alcançam o chão e ficam balançando no vácuo,
mais vácuo é seu coração, que pensamentos o corroem?
As outras crianças correm, brincam, comem os lanches
preparados com deliciosa delicadeza pelas mães:
maçãs embrulhadas em papel filme, pão integral e iogurte de morango.
O sinal toca e o menino, de cabeça baixa, segue para a classe.
A aula é de matemática, a exatidão desses números nunca serviu de nada.
- Responda, qual é o resultado? - a professora se dirigia ao menino,
que ainda de cabeça baixa, não fazia ideia da resposta, não fazia ideia de nada.
- Anda menino! - pouco pedagógica essa mulher.
O menino levantou o olhar sem nenhuma pressa
e todos na sala se assustaram,
sobre os olhos do garoto tremiam duas cortinas...
... duas cortinas na janela, na mais densa noite,
como eu odeio matemática.
E dentro da solidão maior rememorava as lembranças de outrora,
fazia uma revisão da própria vida
e não concluía nada,
sabia tanto da vida
quanto do problema de matemática da sua longínqua quinta série...
- Caio Augusto Leite
A bolinha azul
Como parece grande esse mundo,
como acreditamos que somos especiais.
Esses alpes, esses montes,
esses desertos, essas fossas abissais.
Mas de repente o homem
constrói um foguete
voa pro espaço cósmico
e descobre que toda essa magnitude
não passava de inflação do ego...
E vista assim
no vago do universo,
a majestosa Terra
é só uma bolinha azul.
- Caio Augusto Leite
Da vida
A vida é só perda,
a gente perde anos,
a gente perde dente,
a gente perde cabelo,
a gente perde parente.
A gente perde dinheiro,
a gente perde a fé,
a gente perde o sono.
Por fim,
a gente perde a gente.
A vida é uma mulher da vida,
a vida é uma perdida.
- Caio Augusto Leite
Em busca de derrotas
Não lutarei as lutas pra vencer,
de minha boca não sairão hinos de consagração.
Quero brigar pelas coisas inexistentes,
pela existência de tudo que existe.
Quero lutar e manter aceso o ânimo da vida,
mesmo na mais profunda desilusão
terei ainda qualquer força para caminhar.
Não lutarei com vocês, que ao vencerem
a batalha almejada se sentam e repousam
no doce vento da tranquilidade e do egoísmo
das disfarçadas necessidades coletivas.
Antes buscarei as ondas em mares lunares,
o filho perdido da virgem, que não é Maria.
Pularei na frente da flecha não lançada
e darei a volta ao mundo a pé,
descalço, sem ter nem mesmo uma simples alpargata
para amaciar essas pedras afiadas que se estendem no horizonte.
E com a linha do horizonte farei um laço
para aprisionar o cometa que vem passando
pela noite densa e darei-o para a minha
mais completa amada, que ainda não conheço
e que nem hei de conhecer...
Não lutarei com vocês,
é triste, mas serei sozinho.
E nessa peregrinação impossível
vou lutando...
Vou lutando e me perdendo
e perdendo todas as lutas
que entrar,
- Eu quero perder até as lutas que ganhar!
- Caio Augusto Leite
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