sábado, 4 de agosto de 2012

O sonho acabou


Caetano faz setenta,
e ninguém mais tenta.
Não há mais lua,
nem sol,
nem a luz de Tieta.

Algo escureceu, alguém mais percebeu?

Gil faz setenta,
não há o que se refazer,
o amor chegou no fim,
rebentou,
falei com Deus, ai de mim.

Falei e ele nada respondeu.

Milton faz setenta,
morreu na travessia,
não há baile na vida,
nem fé, nem faca, nem Maria.

Chamei Maria, ela acenou adeus, não mais sorria.

Paulo faz setenta,
foi só um rio,
foi vendaval,
foi leviano.

Todos parados num sinal fechado.

Só resta esperar que Chico faça também,
que faça também setenta.
Aí voará o Carcará,
numa gota d'água,
numa lágrima de sabiá
a Banda vai findar...

- Caio Augusto Leite

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Que nunca virem estrelas


Toco nos teus cabelos
e sinto a beleza dos fios,
que um por um tramam
a imensa confusão da tua cabeça,
dos teus pensamentos, dos teus anseios
em forma de revoltosa cabeleira.

Lavanda, limão, cravo:
aromatizados pelas próprias mãos de Flora.
Ninfa par de Zéfiros, ele que passa
e ondula teus cachos feito Medusa,
mas Medusa contrária, só teu olhar
pra despretrificar meu coração.

Preciso te esconder do mundo,
guerras nasceriam, tantas mortes,
todos buscando a seda sinuosa
que brota de tua cachola.

Buscarei belezas outras para ofertar aos deuses.
Que Afrodite nunca te encontre
para raptar teus dourados fios
que pendurados feito estrelas - ao lado de Berenice -
só seria possível o toque ao morrer, de afogar-se, em largos rios.

- Caio Augusto Leite

Xodó


Yupi, uipi, Uipi-você.
Meu atualizado Dindi.
Ficará aqui, ou baterá asas
indo para outro jardim?

Tudo verdeja, se te vejo.
Ribeirões, rosinhas
e todas as delicadezas
que a natureza cria.

Já não sofro, sei que é vão.
E as lágrimas que teimam em cair
são prefácios de felicidade.

No reino dos sorrisos és soberano,
Uipi-lá, Uipi-cá, Uipi-você em todo lugar.
Tem Tom seu Dindi e eu criei você.

Um carinho,
um afeto,
um Uipi pra mim.

- Caio Augusto Leite

Integração de corpos


Tão perto de ti que ouço tua barriga roncar,
sinto o cheiro do xampu,
do sabonete,
da colônia.

Tão perto de ti que sinto teu coração
quase saindo, teu sangue correndo,
teus pulmões recebendo ar.

Tão perto de ti que sei o que pensas,
por onde andam o sinais elétricos,
as sinapses, as mitocôndrias trabalhando.

Tão perto de ti que me perdi
dentro do teu eu.
Sei lá quem sou.

Sou esse que fica perto de ti,
só pra não ficar sendo eu,
sendo ninguém.

- Caio Augusto Leite

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

( )


Havia dentro de mim um poema pronto
nascido dum relâmpago de (in)consciência.
Verbalizaria de vez tudo o que em mim chorava,
sussurrava, pedia para sair do escuro.

Mas o tempo me deu um susto no meio do caminho
e do meu coração escorreram todas as estrofes,
versos e palavras que aqui moravam.

E foi tudo minguando, não há discurso possível.
Descoloriu, esmaeceu, virou silêncio.
Nada têm, as palavras. Elas apenas são:
opaca parede, grande sigilo, nenhum mistério.

Nada perdi, pensando bem.
Só daria ao mundo mais falseamento.
Quanto mais palavras digo,
menos há de entendimento.

- Caio Augusto Leite

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Impossível afago


Está tão frio
e sua ausência
é vontade de chorar.
Mas se choro, choro agulhas congeladas
que queimam a pele triste.

Traste, trágica vida nos dividindo,
em qual mundo distante nossa história deu certo?
Ou será que dará ainda,
depois de todas essas hesitações,
provações, provocações do destino.

Ânimo, menino.
Cuida dos teus silêncios
e grite quando puder...

Grite, chame, implore, apele!
Apelo, ah pelos, oh beijos.
Cuidado, criança, o jogo é de queimar.

Que mar é esse em que se nada,
nada pra nada achar,
de que vale tanto esforço
se tudo é afogar?

Está tão frio
e sua ausência,
e sua presença em gestos casuais,
raras lembranças.

Quanto mais chove,
mais choro, mas choro
com tanta delicadeza
que talvez Deus se compadeça...

É triste não te achar,
é longe te perder.
É fácil sorrir,
(brilhar e vencer)
quando eu sou você.
Sol de você.

- Caio Augusto Leite

Da plenitude




     Era preciso escolher um dentre os três escrínios. Não era uma decisão fácil, pois ninguém sabia o conteúdo deles. Havia muita ponderação, medo do risco, lágrimas rolavam com a perspectiva do erro. Mas não havia tempo para esperar uma resolução da vida.  Só ele podia apontar o dedo e dizer: Eu escolho esse do meio, ou da esquerda, ou da direita? Por que não podemos ficar com todos? Mas não resistiu e acabou por escolher e na escolha encontrou apenas três moedas de ouro, era a prosperidade material...                              
     Viveu alguns anos com todos os prazeres da vida, os luxos, os regalos, tudo de lindo estava dentro do seu alcance, mas sentia que faltava alguma coisa e negociando, com seu dinheiro, conseguiu a chance de trocar o escrínio. Dessa vez tirou de dentro dele uma pena e um par de óculos: era o saber mais puro.                                                                       
     Sabia de tudo, todas as esferas do conhecimento, as fórmulas, os cálculos, as artes, os ritmos, as métricas. Nada ficava longe dos seus olhos atentos e da sua mente extremamente treinada para entender todos os fenômenos existentes. E por saber tanto, sabia que faltava algo e usando da sua astúcia trocou novamente os escrínios. E pela última vez abriu a tampa e retirou um coração sangrando enrolado em um pano de seda. Tinha em mãos o próprio amor, o amor de todas as eras.                                                                        
    Amou, amou sim. E teve todos os sorrisos, beijos, toques e esperanças que só esse sentimento pode trazer. Mas por amar demais, também sofria, pois sabia que ainda faltava alguma coisa. Não tendo ouro e nem sabedoria, não podia trocar de destino. Sendo apenas mais um apaixonado, tomou uma decisão radical: jogou todos os escrínios no fogo ardente da eternidade. E sem nem um tipo de algema que o prendesse, seguiu seu caminho com a felicidade mais primitiva. É uma pena, não teremos a plenitude e sendo assim a total ausência de tudo é a única maneira de ser pleno, mesmo não sendo.



- Caio Augusto Leite