domingo, 11 de novembro de 2012
Caminhaduro
(O viajante)
Não, já não acredito em muita coisa.
Certeza mesmo, só a não nenhuma,
pra que haveria de ter
se ela é só apaziguamento?
Quanto menos creio,
mais vivo.
A dúvida me põe em caminho.
Vivo como o determinado animal
de carga que precisa cruzar
longa estrada pedregosa.
Passo, passo, passo.
Vai tudo passando
e eu duvidando.
A flor, o riacho, o brejo.
Todas as paisagens eu atravesso,
pelo verso que rasga a estrada,
que força impedirá a palavra:
qual chuva, qual sol, qual vento?
O que a vida atrasa, a palavra adianta.
O que numa é tempo,
na outra é sempre.
O quando.
O talvez.
A certa incerteza num Eterno-momento.
- Caio Augusto Leite
Prominto
Duzentas escolas,
amanhã eu vou,
chego em uma hora,
a gente se vê.
Nem te vi aí,
vou bem e você.
Eu garanto.
Eu te amo.
- Caio Augusto Leite
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
E depois do amor
Agora nós vamos seguir em frente, não mais dois lado a lado. Mas separados. Ainda que te ame. Ou que você me ame. Sabia que a vida era uma tragédia e eu me espanto com ovos sobre a mesa, com cachorros ruivos, com rosas. E você gosta de filosofia. Você quer pensar como as coisas vieram parar no mundo. E eu tento sobreviver dentro desse mundo, mundo de liquidificador. Estaremos misturados, pra sempre. Ainda que a vida tenha coado nosso sumo. Beberemos e brindaremos a vida com outros sorrisos. Com outros braços. Tua boca, que boca é essa que jamais sentirei. E a minha que também não sentirás. A vida me anestesiou, a cada pequena tragédia foi me preparando para o que era certo. O final. Estamos no ponto final? Sempre podemos pegar o mesmo ônibus, com sorte e rever aquele amor secreto que guardamos em olhares espiados.
Como ontem, passei pela rua e a lâmpada piscava. Pensei em nós. Sabia que estávamos piscando. Hoje eu passei e a lâmpada queimara. Estava escuro e suas mãos foram pra longe. Você se apagou. Eu me apeguei. Eu sofreria mais um pouco, quem sair por último que desligue a luz. Sobrou pra mim a tarefa de soprar a pequena flama de uma paixão que se prometia eterna, e foi enquanto durou. Esses clichês cheios de poesia.
Quando escrevia pensava que podia te colocar dentro de todas aquelas coisas, agora eu sei que a arte é maior do que qualquer amor. Roberto estava certo, ficaram as canções e você não ficou.
E é tão pouco que posso falar. Que vai minguando as possibilidades da escrita. Da língua. Das nossas línguas separadas.
Agora vivo o Amor, sem ninguém por perto. E não tenho mais medo da vida e nem do perigo que é viver.
- Caio Augusto Leite
A entrada do mundo
Penteava-se. Moldava-se para sair. Tinha que ajeitar as curvas e dar limite aos seus poros para que o mundo não entrasse. Ser perigosa era sua salvação. E o seu medo era diluir-se. E por se pensar menor do que era, alongava-se com essas plataformas à la Carmen Miranda e com esse vestido vermelho que a acendia. E quanto mais se brilha, mais se ofusca. Não ser ela era também o seu segredo. O era. Pois se alguém se apaixonasse, não correria o risco de perder-se. Não teria obrigação nenhuma de amar, pois amada não era. E não é sempre assim? Ama-se primeiro o que não é. O amor era esse despentear-se. E para que os cabelos não voassem por essa rua, ela puxava com força os fios. Habitual agressão. Doce dor. Doeria agora, mas amanhã se perdoaria, quando visse aquelas outras. Aquelas outras que conservariam olheiras e noites mal dormidas. E ela dormia cedo, pra acordar cedo, pra dormir cedo. Tudo era cedo pra quem não se atrasa nunca. E ser assim era fazer com que tudo seja tarde demais, descobriria ao despertar.
Capaz de ser feliz, era. Mas como o tímido cantor que nunca soltou a voz, nunca saberia que podia sorrir. Que medo era esse, que havia nela e em mim, de lançar-se? Tem gente que jamais pula. Por isso não existiram e nem sei o seus nomes para citar exemplo. Outras precisam ser empurradas. A mãe pássaro não ensina o voo. Não ensina-se a sair do chão. Mas sim a não querer ficar nele.
Certo. Estava pronta, queria acreditar. E levantando-se cheia de uma pressa vagarosa tinha de ir. A porta era um convite ou uma sentença? Só havia a certeza de que era inútil não sair, dentro de casa também morria-se. E por não poder evitar, ia. E o primeiro passo lá fora era o instante de decisão e como torceu o pé na soleira da porta. E como caiu. E como ralou joelhos e mãos. E como soltou um grito de dor – o primeiro - e só por causa disso algo começava a cambalear num caminhar cheio de liberdade que só os bêbados têm. A vida entornava-se e embriagava-se de uma cadência que não se pode prever.
Pássaro fora do ninho.
Flávia. Agora ela tinha um nome. E as ruas também tinham. E as praças e as flores. Tudo era, ao mesmo tempo, estranhamento e reconhecimento do que estava ali parado. É preciso cair do alto, do salto, para ver as formigas no chão. Para ver-se a si. E ventava. E as linhas tão demoradas de ser construir foram caindo pelas calçadas. Despenteada, ela era ela. E o mundo, ela descobriu, não estava grávido. Não precisaria mais esperar, agora estava misturada. Contornos? Esse mundo é mesmo muito misturado. Agora não haveria jeito. Não tinha, ela, alguém que lhe tirasse do perigo de viver. Saberia não se unir às rosas? Bobagem, elas não falam. O perigo é ouvi-las. Precisava ser a vacilante lâmpada que não se apaga, mas que também não se acende para o pleno vazio. Realmente, ela estava imersa nesse perigo de viver. E, imitando Rosa, só posso dizer que viver é muito perigozo.
- Caio Augusto Leite
domingo, 4 de novembro de 2012
Ainda verde
Uma bela manhã. Mãe e filha caminhavam pela feira do bairro. Ela, por ser criança e ainda inocente, se espantava com a quantidade de frutas que havia no mundo. E aquilo não era nem metade do que existia. Um dia ela descobriria, que assim como os nomes de frutas, o amargo do limão pode ser sempre maior. Mas por hoje ela só se espantaria com o fato de haver maçãs verdes. Passou por elas e a mãe não mexeu um músculo. Queria perguntar se não iriam levar pra casa aquelas maçãs, mas sentiu que não devia. Guardava pra si a imagem das maçãs, como um assunto proibido que se torna preferido e precisa manter-se guardado para que ninguém mais possa gostar. Era a prática cruel do egoísmo. Tem uma bala pra me dar? Não tenho. Respondem com os bolsos cheios de balas cremosas, crocantes, deliciosas. Ela era tão pequena, cruelmente pequena. Ainda que não soubesse usar essa crueldade. Calava suas maçãs verdes. E seguia com a mãe que comprava bananas prata – como podia ser prata se eram amarelas? E banana maçã? E as bananas verdes, seriam na verdade bananas maçã verdes? Por que misturar as coisas que pareciam tão bem feitas separadas? E se uma banana era prata, podia-se pendurar no pescoço feito corrente ou nas orelhas feito brincos? Qual sentido da composição é o referente no mundo? E como cabiam tantos pontos de interrogação numa cabeça tão pequena? Talvez por ser pequena, ou por não se achar grande. A mente que se pensa grande, se defende e não deixa mais nada entrar, por achar que todo o resto é inútil. Como a mãe que não queria comprar maçãs verdes, pois achava que as maçãs vermelhas eram muito melhores – ainda que nunca tivesse comida as tais outras verdes.
E quando a mãe parou na barraca de maçãs vermelhas a menina não se conteve e perguntou “Pra que comprar maçãs, já temos tantas em casa, elas apodrecem” e a mãe como se precisasse explicar um mundo inteiro. Olhou com paciência de normalista. “Não é porque temos maçãs em casa, que não precisamos de mais. Você já imaginou se amanhã não existirem mais maçãs?” Era esse egoísmo que ela já experimentava ao ver maçãs verdes. Só podiam ser dela. Como quem ama e afaga, afoga e mata. Também mata-se de amor. Não por amor, mas pelo medo da perda. Mas poderia esperar, como ainda era pequena não sofreria a falta do gosto desconhecido.
Num dia repleto de descuidos, ela abriu as compras e ali estavam – prontas para o beijo da boca em sede – as suas (egoistamente suas) maçãs. Pelo resto da vida só comprou maçã verdes. Até sua filha perguntar “Não vamos levar peras?” e era preciso explicar tudo de novo. Pois ela ainda estava verde.
- Caio Augusto Leite
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
O motivo do meu nascimento
Havia um tempo em que você era mais só,
pois eu não tinha nascido.
E a sua infância foi a longa procura de mim.
Mas eu vivia por entres corpos celestes,
vultos de criação, maremotos, sei la quê.
Qualquer coisa de cósmico.
E eu te vendo tão triste,
brincando no jardim,
resolvi cair aqui...
...errei o cálculo,
demorei quase vinte anos
pra te achar.
Mas achei.
Não te reconheci,
mas senti algo
de familiar.
É que dentro do seu olhar de agora
- tão cheio de madureza e responsabilidades -
mora ainda aquela sombra triste
que só some quando chego.
Tempo de agora,
em que toda hora é rememoração
dos momentos que já foram.
Natural medo da perda,
medo de voltar para o ser-só.
Como você foi, no jardim,
colhendo flores,
preparando amores
para mim...
-- Caio Augusto Leite
terça-feira, 11 de setembro de 2012
No simpósio
Não procuro a sagrada sabedoria
e nem quero pousar as íris sobre livros.
Não quero a baforada - cheia de arrogância -
dos intelectuais.
Não me deem sermões,
teorias,
fardas
ou obrigações.
No meio desse povo,
dessa gente,
eu só busco um você.
O Você.
A impossível
e vacilante
pessoa.
Onde conjugar?
Buscaria, mas escrevo
e pouco a pouco
sou massa pensante.
Se não se pode amar,
junte-se aos sós.
- Caio Augusto Leite
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