quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O que será?

O que mais dá. O que Deus dará?
Não é com as palavras que vou enricar,
mas posso me divertir e até cantar.

Qual mais feliz será? O que eu posso, tu poderá?
Quente é o sorriso de quem ama
e frio o de quem vive pela grana.

O gosto da vida - açúcar ou sal será?
Para quem toca com a carne, tão salgado.
Aos poetas, seresteiros e namorados - tudo açucarado.

- Caio Augusto Leite

Carnavalizando

Lancei cinzas pela quarta
e fiz meu Carnaval.
Fiz dos medos confetes
e das tristezas serpentina.

Nas negras noites dancei ciranda,
nas manhãs frias abracei o mundo.
Pus roupas leves de chuva
e chovi, chovi, inundei a morte.

Depois de cheia a morte foi-se.
Caiu vida nas minhas mãos
e com ela flori as ruas.

No píncaro dos sorrisos
fiz festa, fiz dança, fiz amor.
Nós dois na santa quarta lançamos cinzas.

Juntos, juntos Carnavalizamos a tristeza.

- Caio Augusto Leite

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Pequeno esclarecimento

Sou o escritor das meias palavras.
De curtos textos, de pouco léxico.
Sou autor em conta gotas.

Se falo demais, me perco.
Preciso falar menos
e acerto o discurso.

Sou qualquer coisa que escreve.
Se bem ou mal - isso é o de menos,
pois não vivo de escrever, escrevo pra viver.

Não me elogiem - pois meu ego infla.
Não façam críticas severas - eu deprimo.
Apenas leiam - e vão embora - tirem suas conclusões em casa.

O texto agora é de vocês,
as palavras, os versos, as rimas.
Me desfaço de tudo e assim consigo viver em paz.

- Caio Augusto Leite

Conformação

Permaneço, mas o tempo não.
Vão-se as flores, fica meu sonhar.
Permanece o tempo, mas eu não.
Ficam os troncos frondosos, vai-se o coração.

Enganei-me. O tempo é infinito.
Eu é que sou parco e pequeno.
E todos os meus compromissos são inadiáveis,
pois posso expirar na bruma da manhã qualquer.

- Caio Augusto Leite

domingo, 18 de setembro de 2011

À ti a aridez

Em desertos sentimentais te aprisiono.
Te amaldiçoo com a sede da alma aflita.
Não me persiga, não voltarei.
Não diga nada, não ouvirei.

Da minha boca a seiva doce
não beberás.
E dos meus olhos as íris ébrias
não mais verás.

É assim mesmo meu (ex)amor,
tudo passa, os navios queimam.
Tudo vai em ondas, em sondas
em ônibus espaciais.

Te deixo no mais profundo deserto.
Não aquele de dunas, nem o de calotas,
mas o mais inóspito dos lugares:
cumprirá a penitência em amarga solidão.

- Caio Augusto Leite

sábado, 17 de setembro de 2011

Poema das 7 horas da manhã

Não houve tempo para reações
o pivete da R. São Bento rápido surgiu.
Pegou a bolsa da senhora de verde abacate
e correu o máximo que pôde.
Dentro nada de muito útil:
Um celular antigo, um batom gasto,
lenços de papel, a foto de um homem
(no verso - Gerson meu amor).
Havia ali outras pequenezas - tudo lixo...

- Aquela vagaba não tinha porra nenhuma nessa cart..
nessa bolsa.

Um olhar e lá a dona passando novamente:
Um correr, uma lâmina afiada o sangue em jatos.
E lá, lá no longe tão perto de nós morria a frágil mulher.
O crime era não ter crime e julgada pois não pagara a fiança.

Em algum lugar o telefone tocou...
- Alô quem fala? - Gerson atendeu
[...]
- Minha Rita, morta?

E desferida a notícia como uma bala,
a realidade caiu como uma bomba de revolta.
Deu na TV, deu no rádio, deu no jornal.
(A dor só persistiu em quem a conhecia.)
Pouco importou - depois de uma semana
era outra a senhora que morria naquela mesma rua
com seu vestido de chita - não era organdi...


... e eu mesmo não mais lembro, pois a rapidez dos outros fatos já me fizeram esquecer...


- Caio Augusto Leite

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Angústia em dia de festa

Não tem muita coisa sobre a mesa, uns salgados, uns sanduíches, refrigerantes baratos e um bolo com duas modestas velinhas azuis. É dia de festa, não festança. É dia de festa por força do hábito da data, mas festa mesmo não é – não por causa das poucas coisas ou das poucas pessoas – não é dia de festa, pois não há motivo para se sentir contente. De repente tudo ficou em câmera lenta – tão lento que parece que estou numa fotografia. Daqui a pouco a luz se apagará, as pessoas baterão palmas, cantarão a canção de sempre – nunca mudam o disco. Vão fazer umas brincadeiras sem graça, eu cortarei o bolo de baixo para cima, como reza a tradição.
Mas nesse momento de suspensão temporal comecei a ver cenas de meu passado com nitidez – ali estava eu brincando na grama verde, depois indo para o primeiro dia de aula, os primeiros colegas, o primeiro beijo, a primeira tentativa de fugir de casa, o primeiro porre. Tudo passando pela minha visão como imagens penduradas num varal, rápidas, cada vez mais rápidas. E eu me perguntando, valeu a pena? Valeu a pena? E só me veio Pessoa na cabeça. Vai saber se valeu a pena ou não, se fiz está feito. Passavam agora cenas mais recentes, mais recentes, mais recentes, eram agora cenas desconhecidas. Cenas de futuro? Ótimo futuro – faculdade, carro novo, apartamento, emprego, mulher, casamento, filhos...
Neste instante temi pelo que iria ver, e se por acaso chegasse ao fim? E se eu visse o meu fim? Eu não quero, desespero, queria sair logo daqui. Tento fechar os olhos, mas as imagens não são físicas e continuam a passar pela minha mente. Agora não eram coisas agradáveis de ver – brigas, assalto, mais brigas, divórcio, guarda dos filhos, velório de algum parente, perda do emprego, choro, álcool, praia deserta, vertigem. Passado, presente e futuro tudo passando muito rápido, um carro, uma avenida, 120 km/h, um cachorro na pista, um poste, uma batida, um clarão – a luz se apagando uma canção de aniversário.
São meus 18 anos e desgraçadamente sei tudo que vai acontecer, não quero, não posso. Num ímpeto de raiva viro a mesa, voa tudo para todos os lados. Olhares espantados, abro a porta e corro para a rua. Ligo o carro recém-comprado - uma avenida, 120 km/h, um cachorro na pista, um poste, uma batida, um clarão. A ordem estava invertida – o momento final era o momento próximo e nada estava acabado, pois o futuro era agora. E por incrível que pareça não lembro mais nada do dia do meu aniversário – o que virá permanecia oculto por uma cortina pesada e a morte é ainda o meu maior mistério.

- Caio Augusto Leite