sábado, 30 de junho de 2012

Na roda sou turista


Música, te respeito.
Te respiro,
me inspiro,
mas o que lanço
não é mais do que um gemido.

Canção não faço,
e preso no poema de papel
fico frustrado.

Meu violão é de concreto
meu piano congelado,
minha melodia, som diáfano.

Notas, como atingi-las?
Talvez não possa
e a inveja come-come meus versinhos
que ouvem caladinhos o violão do mestre Rosa.

- Caio Augusto Leite

Queria ser você


Luminosa alma, colorida,
espelhada de estrelas.
Tudo que sai de você
é só reflexo do seu
interior de bela imagem.

E não é necessário tecer versos,
pintar telas, esculpir pedras.
Basta existir para que tudo
ao seu redor se consagre em arte.

- Caio Augusto Leite

Frágil nó


Parece nó firme de corda, marinheiro,
mas é frouxo truque de mágica
que só falseia um sentimento
que nunca nos uniu.

Vai soltar, vai largar, vai sumir.

E eu sempre quis te avisar,
mas você achou que era grande navegante.
Taí o resultado, seu navio indo embora
e eu aqui largado no mar pra me afogar.

- Caio Augusto Leite

Impedimento


Meu amor, eu lamento
mas existe um motivo
um triste defeito
um grande impedimento.

Sozinhos de nós seremos,
você terá um novo carinho.
E eu impedido de ser feliz
viverei no meu cantinho.

Nas sombras,
nas sobras
que Deus meu deu,
nunca um amor de meu.

Meu amor eu lamento
mas vivo um dilema,
é preciso romper agora
e evitar o constrangimento.

Existe sim,
aqui em mim,
um grande impedimento.

- Caio Augusto Leite

Épica


Primeiro decomponha a palavra em verbo e substantivo.
Depois pegue-a, sugue-a, salive sobre.
Faça movimentos pra frente e pra trás.
Guerreie com ela, embate entre gruta e espada.

Mas ninguém vencerá,
morrerão os dois na arena de lençóis
e o sangue aos pouco vai esfriando
agora que findou a vil batalha.

Decai o herói e as musas cantarão
seus feitos e suas virtudes
sobre a carne que se abre
pra receber o prazer maior
que só vem depois da dor da guerra...

- Caio Augusto Leite

Tarde de junho


Te juro, tarde de junho,
que o vento frio soprando
não é nada quando caminho
lado a lado com o meu grande carinho.

Quando abro a janela e vejo o verde
verdejando sob a luz do falso sol de inverno,
quando os pássaros passam cantando
saudosos de primavera, eu te ignoro tarde de junho.

Encontro o amor sempre num repente,
dentro daqueles olhos onde me reconheço.
É sempre o amor de novo,
sempre um amor novo pela tarde de junho.

E o nosso adeus é vacilante,
há risco no abraço, há medo no beijo.
Amor em segredo. Sagrado? Não sei.

E amanhã já é julho, fico na dúvida
se vai durar o sentimento
que juntou vento de maio com a manhã de setembro.

Se eu pudesse parava o mundo,
que fique o amor quente
como se fosses tu pra sempre
tarde de junho...

- Caio Augusto Leite

Mamoeiro de verdade


No meio do mato, distante de fato
de toda população de homens-deus
uma fruta caída, aberta, pronta
para o milagre de se refazer.

Além da indecisa casca,
no côncavo laranja do fruto doce
habitam centenas ou milhares
de pequenas sementinhas.

Teimosas, resistem aos tempos
de abominação ao verde,
ao lúcido, ao natural modo
de existência.

Não há crise de identidade,
sem misturas, sem biogenéticas metamorfoses.
Nada de mamera, mamaçã, mamelão.
Seu nome, ainda, mamão.

E todos os humanos sentem inveja do inocente fruto,
que nu de todas as expectativas de melhora de cultivo
consegue se enterrar na terra e providenciar
novo mamoeiro que rompe a mata, a morte e finca no céu seu ápice.

Nós aqui comendo tomate ácido,
vestindo pêlos que não são nossos,
existindo em função das outras
coisas que nos protegem, já nem somos.

Límpida chuva rasga o sol,
eu acho um tédio.
E a árvore se anima com a vida prodigiosa que vem caindo,
é que ela não parece, é. É mamoeiro, mamoeiro de verdade.

- Caio Augusto Leite