terça-feira, 31 de julho de 2012
Tristezas do primeiro amor
Não sabia que doía amar,
não o amor em sua plena ação,
mas o amor distante, quando falta,
quando semeia saudades e lágrimas
dentro do coração.
Eu te digo adeus com os olhos de ficar,
eu te abraço e te beijo com a certeza de voltar.
Te buscar no mais remoto lugarejo,
perceber tua aflição,
acabar com essa mágoa
que a distância causa.
As coisas são assim, meu bem,
o amor nasceu para doer.
E dói e marca e fere mais,
quanto mais tempo fico sem te ver.
Tempo... palavra que não temos
e sempre sozinhos dentro dos nossos compromissos
vamos deixando o amor morrer...
Não deixe! Não deixo!
Me queixo, me rasgo, me mato,
mas não desisto de um amor,
mesmo que doa ou sangre...
Quarta é dia de ver-te
é dia de luz, dia de flor!
- Caio Augusto Leite
sábado, 28 de julho de 2012
Cultivar
Flores, flores, flores
o que seria da gente sem vocês?
De nós que vivemos de amores,
mas cheios de dores.
Que pretendemos a felicidade
no laço de afeto,
nos braços, no calos,
em todos os momentos.
Dos teus aromas precisamos,
das tuas cores vivas,
das tuas pétalas, da tua seda,
da tua virtuosa imagem romancista.
Necessário símbolo de comprovação,
testamento do bem-querer.
Inviolável documento,
durará até murchar.
Até que outras venham
e outras e tantas.
E jardins de tantas,
tantas quantas puder carregar...
...mas também plantar,
dentro do peito,
a impossível flor.
Rosa de Vênus.
Cardo nos dedos.
De contradições
e medos:
Amor
- Caio Augusto Leite
sexta-feira, 27 de julho de 2012
Mais uma teoria impraticável
Já não há paz possível,
já não há o possível,
por isso não venham comigo.
Não pisem no asfalto, já é intangível.
Não alarguem o túnel do tempo, já é passado.
Nem tentem alcançar o que está por detrás
da densa névoa do sonho, é a decepção.
Não esperem a esperança,
não se enganem com anúncios,
não vistam a camisa e nem ergam a bandeira
de promessas que já faliram.
Dispersem-se pelo mundo,
percam-se, esqueçam-se.
E quem sabe nesse novo horizonte,
de nós sem nós, o impossível
- único possível -
faça surgir a paz que nunca encontrei.
- Caio Augusto Leite
quinta-feira, 26 de julho de 2012
Quem é você?
Como é triste, alegre e dispendioso te amar.
Assim que o dia nasce te procuro,
te busco em cada luz ínfima que reluz
como se pudesse dar notícias de você.
Mas onde está você?
É preciso te achar,
antes de ter,
é preciso te conquistar
de novo e de novo.
Como é infeliz esse amor distante,
um instante e você me aparece:
miragem ou milagre?
Quem é você que destruiu as paredes tão robustas
que eu havia construído ao redor de mim?
Quem é você que desaparece no fim do dia
só pra aumentar o meu amor?
Se não é você o grande desejo
e nem o perfeito carinho.
Meu Deus, se não é o motivo dos meus versos,
então quem é você?
- Caio Augusto Leite
Análise
O poema apresenta sete versos
em redondilha maior.
Começa com um verbo no pretérito
e termina com uma indagação.
A terceira palavra de cada verso
é um substantivo relativo ao mar.
Talvez fale de ondas, talvez de amor,
pode ser misticismo ou violência urbana.
Parece que é só lugar comum,
ou seria a paz que já não há?
Paz que é lugar nenhum.
- O poema é sobre a efemeridade da vida,
disse o professor frustrando a sala.
Ainda acho que é de amor.
Quintana disse: "Todos os poemas são de amor!"
- Caio Augusto Leite
quarta-feira, 25 de julho de 2012
O plano
O plano era amor,
mas virou cachaça,
saudade, suor e dor.
O dia que era pra ser de sol, choveu.
O passeio no parque foi adiado,
os teus afagos, censurados
e tua boca não cantou beijos, flores, nem cantigas salivadas.
O plano era pleno,
quase certo, infalível.
Plano de coração é pano fino
que qualquer força rasga e finda.
A noite era de pizza,
mas virou de pilha,
pilha nos nervos,
vasos quebrados, dedos sangrentos.
O plano era meu,
era seu, era de ninguém saber.
Era de nós, nós desfeitos a sós.
A volta seria um banhar de estrelas,
um abraço apertado, uma saudade miúda
que cresceria e que só morreria
no próximo plano.
Mas o que era pra ser novas recordações
ficou guardado nos porões do inacontecido
onde torres não caíram, onde Elis venceu janeiro.
- Caio Augusto Leite
Momento triste
A tristeza andava diluída
dentro d'alma, em água.
Líquida tristeza boiando
pelos caminhos do corpo,
quase um sangue, fluida tristeza
levando vida pelas veias,
até o pé, até o lá, até a mão.
Mas que confusão, que destempero.
Seu adeus, seu nunca mais,
meu desespero.
Empedrou, calcificou, concentrou
a tristeza em pedras de amargar.
Virou úlcera, virou cálculo, virou câncer,
virou blocos de tristeza, sem carnaval.
Um pouco aqui, outro acolá, cada pedrinha
perdida minando o organismo que já te perdeu
e por isso mesmo não tenta nem lutar.
Não chora por morrer,
nem tem o que deixar.
Tristeza é lugar nenhum,
tristeza é qualquer lugar.
- Caio Augusto Leite
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