quinta-feira, 30 de agosto de 2012
O distante reino de cá
É coisa de saber,
mas que não sei que sei.
É um segredo embrulhado
em casca de bom-bom
a sabedoria do mundo
dentro do caramelo.
Caramelo,
caramujo,
caravela,
Caramuru?
Que cara é essa?
Custa caro não saber.
Vê-las, as palavras,
estiradas pelo chão
das histórias e nunca lê-las.
- Mãe, compra aquele bom-bom?
- Que é bom-bom? Dose dupla de bom?
- É onde se encontram as palavras-agorinha-mesmo-nascidas.
- Xismágrifo!
- Mamãe, você é um bom-bom?
Ela era um bom-bom.
Como eu e você.
Dentro de nós
o gestar-parir de xismágrifos ainda, por cá, sem dedo-apontamento.
- Caio Augusto Leite
terça-feira, 28 de agosto de 2012
A garça
Pousada no concreto,
sob o córrego,
suja e alva.
Voando e estática.
O lá e o aqui.
As águas correm,
ela fica.
Olha o homem,
o homem não vê.
Garça bela,
de graxa, de falta,
morrerá intoxicada.
Intocada garça.
Que graça.
Pena que caiu
em desgraça.
A garça
é tu.
A garça
sou eu.
A farsa
da garça.
A garça
morreu.
- Caio Augusto Leite
domingo, 26 de agosto de 2012
Nacaradas
Belas, macias, coloridas.
Dormirei o sono mais leve
por cima da sua pele de algodão.
Bonitos carneirinhos que vão,
vão pelo infindo azul
levar ao longe azul
um cobertor de plumas.
Mas um dia, como toda beleza, acabarão.
E eu cairei de lá de cima
para a terra impossível,
onde a água molha
e leva o sonho.
Tão lindas,
tão minhas,
pena que chovem...
- Caio Augusto Leite
Liberte-me
Eu quero queimar essas folhas,
desintegrar o meu livro.
Me libertar das palavras,
reescrever meu destino.
Não quero mais versos,
nem chorar, nem chorar
essas sílabas.
Eu preciso queimar essas folhas,
mas queimá-las é apagar minha vida.
- Caio Augusto Leite
sábado, 25 de agosto de 2012
Às boninas
Belas boninas, que tão de repente
surgem nos chãos duros da cidade.
Quisera eu poder fazer com que os versos
viessem assim do pleno gozar da Primavera
acariciados pela palma da mão de Zéfiros.
É que as suas pétalas devem ser pintadas
uma a uma, cada palavra-cor no seu lugar.
O pólen colocado na medida certa,
chinesa paciência.
Mas em algo se assemelham:
na espera, no seu tempo.
Não apresse as boninas,
não force o verso.
Do chão, do corpo, da mente.
As florezinhas vão nascendo,
tecendo imagens que são por si.
E os versos que surgem
só sabem refletir a flor
que já não é mais a flor bonita,
mas a beleza de botar flor
onde flor não havia.
- Caio Augusto Leite
Amem seus filhos
Não amem seus filhos,
eles que vão decepcionar
todos os seus sonhos.
Que não amarão as mulheres pretendidas,
que não seguirão o plano traçado,
que vão fazer tudo aquilo
que você mais teme.
Não amem seus filhos,
que sairão de casa,
que levarão os brilhos,
as estrelas e deixarão
aqui todas as preocupações.
Que matarão aos poucos
os seus fios de cabelo.
Que um dia não mais voltarão,
que terão seus próprios filhos
e as mesmas penas que vocês.
Por isso não amem seus filhos...
Mas quando eles vierem pedir conselhos,
chorar o sonho ruim,
trouxer os risonhos netos...
Ah, não sejam insensíveis...
É o caminho mais difícil,
mas amem seus filhos.
- Caio Augusto Leite
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
Desrazão
O nosso amor, tão nosso.
Tão de ninguém. Quando existirá?
Nosso amor vive do quando.
Tempo-quando, espaço-quando,tudo-quando?
E nesse não-lugar,
nessa hora nula,
nesse vazio cheíssimo
eu te preciso tanto.
O sol, o mar, as pedras
- coisas que vivem perto de você,
mas vivem sem precisar.
Sorte delas que nunca sofrerão
a tua ausência que só existe
pra me deixar feito Sorôco,
cantando, cantando, cantando...
- Caio Augusto Leite
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